1 de março de 2010

Fluxo da Maré – Uma desventura de Omnichrom, o super-herói das realidades alternativas


Pagina 1

Em um quadro geral, visto de cima, vemos o calçadão da praia de Copacabana, num final de madrugada. Poucas pessoas circulam por ele. À medida que a visão vai se aproximando (pode ser no mesmo ou em diferentes quadros), conseguimos definir essas pessoas. Num extremo, um velho com roupa de corrida está fazendo uma caminhada ritmada. Perto de um quiosque, uma prostituta está contando dinheiro. Um carro da polícia está parado, onde vemos um policial esfregando seus olhos, combatendo o cansaço. No outro extremo, um rapaz, vestido de roupas da moda e um largo crachá escrito "imprensa" pendurado no pescoço está mijando em um coqueiro na areia e, bem próximo dele, uma menina de rua (16 anos aprox.) deitada está dormindo, coberta por um pano sujo. Perto deles dois está Omnichrom, o super-herói de realidades alternativas, sentado num banco no calçadão da praia, observando o sol nascer e o distante movimento das ondas, impassível. 

Nosso herói é um ser todo de branco, seu corpo, sua pele, todo e inteiramente branco. Ele não tem cabelos, não possui sexo definido. Forte, porém não é musculoso, possui altura mediana. Algumas partículas douradas flutuam ao seu redor, em diversas velocidades e direções. Algumas são vistas, outras apenas formam um brilho dourado ao seu redor. Seus olhos e sua boca têm um brilho prateado. Um risco prateado corta o herói em dois do topo da cabeça até a virilha. No peito brilham levemente as letras OC. 

As pessoas começam a se mexer. A prostituta se desloca para mais próximo da rua; o policial entra no carro; o velho aumenta o passo na direção do quiosque; o rapaz volta pro calçadão e a menina acorda, como se incomodada pelo cheiro de urina e por algum sonho que se foi. Omnichrom continua parado. Podemos vê-lo melhor, bem de perto, enquanto as ações são destacadas. O velho passa pela prostitua, que está olhando para rua deserta como se esperasse algum carro. O velho finge não percebê-la, enquanto ela abaixa a cabeça, evitando o contato visual, quando ele passa. O policial ajeita o banco do motorista do seu carro para trás e coloca seus pés para fora da janela do carro. O rapaz anda quase que em zigue e zague e a menina levanta xingando o odor, arrastando o pano. 

Podemos ver bem próximo que Omnichrom olha fixamente para o mar, mas parece que, de alguma forma, ele está ciente de tudo que se passa a sua volta.

 

Pagina 2

Um táxi entra no extremo oposto pela avenida atlântica, ao passo que, do outro lado, a prostituta levanta a cabeça e o visualiza. Não conseguimos ver seu interior, muito menos o seu motorista. O rapaz passa por Omnichrom sem sequer percebê-lo, sorrindo e cantarolando num alegre pilequinho. O policial de novo ajeita as botas , enquanto que o velho olha para o policial com um contido desprezo. A menina então vê, num sobre-salto, Omnichrom. Ele continua sentado exatamente como antes. Percebemos somente agora um grupo de gaivotas negras de barrigas brancas passarem por cima dele, brilhando por baixo pela forte iluminação da praia. Tudo está em movimento, em fluxo, apenas Omnichrom está parado. Em todas as direções, ações das personagens. O rapaz chuta uma pedra portuguesa e comemora um gol, o táxi muda de faixa quando a prostituta faz sinal, o policial mexe uma ultima vez seus pés com botas, o velho desacelera e passa uma pequena toalha sobre seu rosto. O rapaz percebe que seu zíper ainda está aberto e o fecha com certo esforço enquanto caminha em passos bêbados e a menina chega bem perto de Omnichrom, e começa a encará-lo. Ele continua olhando o mar, que começa a recuar bastante. Embaixo, o título em letras grandes: "Fluxo da Maré".

 

Página 3

Cenas em Flashback preto-e-branco. Um garoto está num colégio fazendo uma prova. Apesar de aparencia normal, seu rosto parece muito com o de Omnichrom. A ponta do lápis dele quebra. O velho aparece ao lado de um túmulo no cemitério São João Batista, ajeitando uma coroa de flores que dizem "nunca irei esquecê-la". O policial está andando por uma estrada cheia de árvores em volta à cavalo. A prostituta está numa loja calçando um sapato de ponta agulha de oncinha de marca. Sentados no Maracanã, o rapaz está assistindo uma partida, ao seu lado percebemos uma silhueta corpulenta, mas ainda não conseguimos definir quem é. 

Já presente em cores a menina está olhando fixamente para Omnichrom e fala quando a ultima gaivota termina de passar por cima deles. Podem ser vários quadros.

 

Menina –(encarando) Moço...?
Omnichrom – (sem se mexer, em uma voz metálica) Olá.
Menina (com certo medo) Puxa, é você mesmo... Disseram que você tinha partido... Pra Lua ou algo assim...?
Omnichrom – Eu estou em Titã, uma lua de Saturno, vendo o movimento dos anéis, mas achei que você queria falar com alguém...
Menina – Hã?
Omnichrom -... Pequena Joana.
Menina – Como... Como você sabe como eu me chamo...?
Omnichrom – Daqui a mais ou menos 10 minutos você vai me dizer... (olha pra ela pela primeira vez) quando estiver chorando.


A Menina olha pra ele sem conseguir dizer nada. Omnichrom a encara e se levanta, cainhando para a areia, voltando novamente seu olhar para o mar. Ela o segue.

 

Página 4

Ele finalmente para e se senta de pernas cruzadas sobre a areia fofa.  Ela se aproxima, olhando as pegadas que ele deixou pra trás. Ela pergunta com rapidez, mostrando um pensamento rápido e astuto.

Menina – Saturno? Lua? Anéis? Você tá brincando comigo? Por quê?
Omnichrom – Porque é lá que eu estou. E é pra lá que eu vou te levar, depois de você tentar me convencer de salvar as pessoas daqui.
Menina – Salvar? Convencer do que? Que doideira é essa?

 

O rapaz passa a andar meio de vagar, olhando para longe, abstraído. O policial se move agora para ouvir o radio de policia. A prostituta se inclina pela janela do táxi, percebemos que o taxista é o sujeito corpulento no Maracaná do Flashback da pagina  anterior que, apesar de aparecer coberto por sombras, parece nitidamente ouvir a prostituta com extrema má vontade. O velho para de correr e começa a andar, alongando os braços no alto da cabeça.

 

Omnichrom – São possibilidades, pequena Joana, infinitas possibilidades. Posso ainda estar aqui e talvez você possa me convencer aqui mesmo, ou talvez eu a deixe antes da onda vir.
Menina – (olhando ainda pra ele, começa a olhar pro mar, gagueja) On...Onda?

 

O mar está recuando bastante. Ações indefinidas dos outros personagens, não se consegue distinguir o que eles estão fazendo, tudo está borrado.

 

Página 5

Menina – (olha pra ele com muito medo, mas um pouco de raiva) É isso? Você vai inundar a praia? Eu vou morrer?
Omnichrom – Eu não vou inundar nada. Isso já está predestinado. E não, não tem haver com o aquecimento global ou qualquer coisa mundana, trata-se de um evento isolado, quer dize, mais ou menos... "Ai de ti, Copacabana" já até profetizaram... Bem, não importa. É inexorável. E é por isso que eu estou aqui, agora.
Menina – (confusa, quase cômica) Eu pensei que você estava em lá em Titã...
Omnichrom – Essa possibilidade ainda existe, mas agora estou aqui. Minha mente estava numa prova de geografia, na minha infância, já meu corpo matriz, naquele satélite distante. Mas sua presença afetiva me fez voltar para o aqui-agora.
Menina – (rápida pausa) Eu não estou entendendo nada...
Omnichrom – (cortando-a) E nem precisa entender. Está longe do entendimento humano, de certa forma. E claro, toda aquela ladainha de que a física quântica já explicou tudo... Bem, não é tão simples assim, mas também pode ser que seja... Pode ser que seja até bem simples, bem mais simples que física quântica... Acho que prefiro a mitologia. Ela explica de forma menos direta, é verdade, mas de um entendimento menos intelectual, mais sensorial. Claro, ela confunde um pouco, mas com o tempo e alguma maturidade... (a mão de Omnichrom pega um punhado de areia)
Menina – Olha, eu sou bem inteligente, tá? Não é porque eu moro na rua que eu...
Omnichrom – Eu posso ver seu fluxo temporal, não se preocupe.
Menina – Fluxo... Você quer dizer minha vida? Minha vida toda?... (ficando com os olhos borrados) Então eu vou morrer?
Omnichrom (deixando a areia escapar de uma das mãos em direção a outra, mais embaixo) Claro que vai.

 

Página 6

A menina olha para o mar, que continua recuando.

 

Omnichrom – Ah, você diz agora? Não, agora não.

 

Ela olha confusa e assustada para ele.

 

Omnichrom – Agora não. Em 50 anos talvez... Ou em 6 minutos. Ou então eu posso levá-la junto comigo para Titã e...
Menina - (irritada) Eu não quero ir pra lugar nenhum!... Eu quero...
Omnichrom – (Deixando o ultimo grão sair de sua mão para outra, falando pausadamente, com leve tédio) Você quer viver.
Menina (olha para baixo) Sim.
Omnichrom- Por quê? Sua vida não é muito difícil? Você acha que todos que estão aqui merecem que algo de bom aconteça com eles? Se eu intervier, aquele rapaz vai descobrir ainda hoje que sua divida no banco é bem maior que ele pensava. Aquele policial lá naquele carro não será poupado por seus superiores numa investigação e será acusado de corrupção - como bode expiatório - de mais um "escândalo policial" que aparece e some da mídia; Já aquele senhor correndo, ele luta por uma saúde que ele mesmo já abandonou em seu íntimo e você nem quer saber o que pode acontecer com aqueles dois no táxi.
Menina – (corta-o) Você é um deus?
Omnichrom – Como?
Menina – Você é uma espécie de Orixá? De Cristo, Buda ou algo assim?
Omnichrom - Ah... Ha ha ha ha... Não, não, Joana, eu...
Menina – Então como pode saber disso tudo?
Omnichrom – Já disse, eu apenas vejo...
Menina – Olha aqui, acho que você vê o que você quer ver!
Omnichrom –... Como assim...?

 

Página 7

Menina – Sabe, que nem minha mãe. Ela sempre se preocupava com tudo, comigo, meus irmãos, minha família, os vizinhos, as pessoas na Rua... Mas ela sempre pensava o pior de nós. Dela mesma. Ela sempre achava que tava todo mundo certo, todo mundo menos ela mesma e quem era próximo dela. Não era por mal, sabe? Mas acho que ela não tinha muita... Como era?... Auto-estima, é, é isso, auto-estima... Enfim, ela tinha muita tristeza e muita magoa da vida, achava que havia perdido algo que nunca mais iria recuperar, sei lá.... Então ela  me fazia mal, muito mal mesmo, mas sem nem saber. Então eu fugi. Ou melhor, eu fui embora. Foi o que deu pra fazer, pois ela vivia reclamando de tudo, botando erro em tudo e pior, achava que o erro era sempre nosso, não conseguia ver que tudo são... Escolhas.
Omnichrom –... Escolhas...
Menina – Sim, é isso. E acho que você vê as coisas assim. Claro, você pode ver bem mais que a maior parte das pessoas, mas você... Fica preso no que você entende, no "como" você entende e não enxerga que as coisas podem ser mais do que elas são. Bem mais... (fala como se citasse alguém). "As coisas podem ser o que você quiser" Quer dizer, sei lá, talvez não tudo, mas se não estivermos abertos... (ela começa a chorar) Sabe, eu gostava de um menino, mas ele morreu. Ele era bem mais velho que eu, mas eu o adorava. Ele me dava muita força. Muita mesmo. Sempre dizia coisas legais pra mim, lia muitas coisas legais, me ensinava muito. Me ensinou a gostar de ler. Ele era de uma ONG. Ai a ONG foi embora e ele ficou, com a grana dele mesmo. Ele levava muitos livros pra minha escola, com umas histórias muito legais, livros e quadrinhos sobre povos antigos, folclore sobre os índios brasileiros e o do povo africano e todos aqueles deuses bonitos... Lia muito com a minha turma, mas todo mundo ia embora e eu ficava lá com ele, lendo e lendo... E tinha umas peças de teatro muito legais, não tem nada mais legal que o teatro, né? Também iamos em uns centros culturais e uns museus incríveis... E isso foi só o começo. O melhor foi que ele nos ensinou a correr atrás disso tudo! Pesquisar em biblioteca, em sebo, na internet ... Ler vários dicionários... A gostar de palavras, sabe? Buscar o que a gente curte o que nos faz crescer. Crescer como gente, não como gado, sabe? E ele sempre dizia "Joana, você é muito inteligente, precisa aprender sozinha a observar o mundo. Lá está tudo o que podemos aprender, se levarmos ele pra dentro de nós." e eu acreditava nele, ou acredito ainda, não sei mais. Agora não posso contar mais com ele. Ele morreu... Ele mesmo dizia isso, que eu ia ter que um dia parar de contar com ele, mas mesmo aqui, eu sei que ele está comigo. De alguma forma. Nada dessa coisa de fantasma sabe? Ele tá no meu coração, bem aqui dentro. Tudo que eu vejo, ouço e sinto, ele está comigo. Faz parte de mim. Minha mãe também, apesar de tudo. Os dois, de certa forma. Você tem algo no seu coração?
Omnichrom – ( Completamente abestalhado) Meu ...
Menina – (ela limpa as lagrimas e fala agora com muita dignidade) Olha, quando nada em casa estava dando certo, quando essa cidade, esse país começou a afundar na lama e eu fugi... (a onda começa a aparecer no horizonte) quando eu fui embora... Quando eu fui seguir o meu caminho, eu... (ela para de olhar para o mar)...
Omnichrom –... Coração.

 

Pagina 8

Tudo se move muito rápido: O guarda liga o carro; O táxi se movimenta, levando a prostituta dentro; O velho está se alongando num banco do calçadão; O rapaz está com uma câmera fotografando o que parece ser o nascer do sol. A menina olha agora com muito choro se formando em seus olhos para a grande onda. Fora ela e Omnichrom, ninguém mais á percebe o maremoto. Ela limpa os olhos. 

 

Menina – (agora séria, sem mais chorar, olhando nos olhos de Omnichrom) Moço, eu sei que você pode fazer alguma coisa, eu ouvi falar de você. Eu li muito sobre você, sabe? Li tudo que pude. ... Olha, eu não queria mais morar lá com a minha mãe. Era muito duro, eu era um estorvo pra ela e tudo por lá só piorava,  e eu prefiro aqui, sabe? Nessa areia, bem perto do mar. Principalmente depois que meu amigo morreu... Sumiu... Enfim... Mas eu sonhei com isso, sabe? Com a onda. Com esta onda. E sonhei também que você me salvava. O meu amigo me dizia que meus sonhos eram alertas, idéias soltas, desamarradas, coisas assim. Que nem cadarço de sapato quando solta... (respira, depois fala pausadamente) Eu não quero morrer, (volta a fala rapidamente) mas eu também não quero que você se sinta mal por nada. Se quiser ir embora agora é melhor você...

 

Omnichrom levanta a mão com o resto de areia que cai. A onda enorme avança. Ele pisca. A Realidade se contorce e muda. A onda não existe mais. É como se nunca tivesse existido.  O mar está normal, calmo. O sol nasce. Omnichrom está parado com o braço levantado no ar e o resto da areia finalmente cai de volta na praia. Os dois carros, o taxi e a patrulhinha deixam a Avenida Atlântica; o velho e o rapaz atravessam a rua em lugares distintos, indo embora. Na praia, só restam a menina e Omnichrom.

 

Menina – (limpando o rosto) O senhor fez bem. Fez o que tinha de fazer. Amarrou o nó.
Omnichrom – Eu não fiz nada. Eu só deixei de fazer. Seu sonho é que me guiou. Você que é a super-heroína, Joana.

 

Eles dão as mãos

 

Menina – Venha, vamos molhar os pés.

 

Pagina 9

Grande quadro. Eles caminham na direção ao mar. O sol começa a subir mais, muita claridade.

 

Omnichrom – Sabe, Joana... Você fala muito bem....
Menina- (feliz) Obrigada. Leio muito. Graças àquele meu amigo...
Omnichrom –... Da ONG? Lembra o nome dele?
Menina – (Inspirada) Caio. O sobrenome eu não lembro. Mas você me fez lembrar muito dele... Me faz lembrar muito.... Por isso de "falar bonito"... É de propósito.  Eu lembro dele e ai falo bem. É uma homenagem. Eu gosto... E é tudo o que eu tenho. Falar  bem. Não que isso tenha me ajudado muito nos lugares que eu tentei trabalhar, sabe?...  Ele era mais ou menos da sua altura... Tinha os seus olhos também. Quer dizer... Parecidos. O jeito de olhar. Os olhos não... Ele era o meu super-herói! Os poderes dele eram menores que os seus, mas me marcaram profundamente, por assim dizer. Até que eu aprendi que eu devia ser a minha própria salvadora. Acho que ele me ensinou muito...

 

Rápida imagem de flashback preto-e-branco do cabeçário de uma prova, onde se lê "Caio" na parte do nome, e um rabisco com pedaço de grafite quebrado ao lado do O final.


 

Omnichrom – Ele devia gostar muito de você. E você... Você ensinou muito a ele, também!

 

Quadro menor. Ela sorri largamente. Ele apenas sorri levemente. De mãos dadas, colocam os pés na água. Sorriem para si e depois para o mar e o sol. 

FIM.

(Esse roteiro de 1994 era pra virar um roteiro pra HQ mais formal ou pra um storyboard de uma animação, mas não rolou nenhum dos dois, então republiquei aqui após algumas revisões... 
As pessoas odeiam o nome Omnichrom mas eu adoro. Todo mundo reclama que a Joana fala bem demais pra quem mora na rua, mas esta é uma realidade, que inclusive pode ser a nossa) ;)

27 de fevereiro de 2010

Ultima viagem

É de toda a arte que seria preciso dizer: o artista é mostrador de afetos, inventor de afetos, criador de afetos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é somente em sua obra que ele os cria, ele os dá para nós e nos faz transformarmos com eles, ele nos apanha no composto. DELEUZE 2005

 

Sofre o ator que se preocupa em "chegar a certa emoção". Lógico, cada um tem seu caminho, sua forma, seu método... Mas se o teatro hoje não tem como concorrer com outras artes midiáticas que são mestras em "representar a realidade", ou mais, se "representar a realidade" é um ato de se concordar com o que aqui está, a falida política vigente de opressão velada, que se diz apolítica, então só é arte anárquica àquela que corre por outro caminho.

Qual outro caminho? Não sei, até aqueles que se dizem "contemporâneos" se vendem também ao sistema, dispostos a se sustentar, enquadrar seus projetos em leis de inscentivos fiscais absurdas e desumanas... Por uma questão de sobrevivência.

Pensando bem, sempre acreditei que a mudança vem de dentro, e não de fora, tentando se empurrar algo em cima do que ai esta. Mas também não sei se só mudar alguns detalhes hoje em dia basta. Percebo que se torna pouco ousado, pouco renovador.

Mas ainda sim, não para o publico em geral, mas para mim, o teatro transforma. Seja o must do "contimporaneu", seja um teatrão com escapes visuais e truques de ilusionismo, ainda sim, com a presença do ator, e não uma ilusão de ótica somente projetada numa tela (sic) ainda sim isso me transforma, especialmente porque sou absolutamente cara de pau de ir conversar e sentir os atores após quaisquer espetáculo.


Ontem quando um espectador agradeceu um ator pelo espetáculo que assisti, por um segundo eu também quase disse "de nada". Está tão empregado em mim o trabalho sobre a minha senciência, sobre a minha capacidade de sentir, que me considero parte do espetáculo, mesmo como espectador. Quase ou parecido com espectador emancipado, como propõe/analisa/ensaia (sei lá o termo) Jacques Rancière, que de faço pertenço ao espetáculo.

Alias, isso também se dá na frente da lente. Levei o teatro, regulando sua dimensão para o mais minimalista dos fazeres, para o trabalho para câmera. Tornei aquele pequeníssimo espaço um palco.

Não fiz nada demais, na verdade, pois, para mim, independente da linguagem, estilo, forma, mídia, local, veículo, a arte do ator é se deixar transformar pelo mundo ao seu redor. É essa vivência, essa entrega. Por isso que duvido da celebridade de um modo geral . Salvo exceções a celebridade impõe, não convida, não instiga debates, não propõe possibilidades apartir de sua afetação com o mundo. Na verdade, não a celebridade, mas o sistema que regula a celebridade. E é desse sistema que falo quando o ator tem que se sensibilizar, se deixar alterar e vivenciar a cena, pois esse sistema do falso conforto e da falsa liberdade, vulgariza a vivencia, impede o questionamento, repudia a dúvida, recrimina o erro, descarta a alteridade.

Sei lá , viajei. Queria falar sobre ação em detrimento da reprodução e acabei desviando o assunto. E acabei falando sobre outro tipo de resistência que não só à relacionada ao trabalho do ator.... Ou talvez sim. Sei lá, não quero somente saber nem só sentir.

Leia algo sério e melhor sobre isso:

Conservar e resistir difere radicalmente de fixar um referente e reproduzir. A arte inspira-se no vivido, nas relações dos corpos, nas afecções e nas percepções para extrair afectos e perceptos. Os seres de sensação, ao se conservarem, abrem-se para a produção de novos devires, novas possibilidades de existência. A arte resiste ao desterritorializar o sistema de opinião, talhando fendas no guarda-sol que nos protege do caos. Ela é contraponto que vence a opinião e extrapola o vivido. Arte-fabulação, cujos os seres de sensação, seres de fuga tornam-se traços de expressão possibilitando a metamorfose, já que inventam novos mundos, compõem universos capazes de rasgar os significados, "estourar as percepções vividas", percorrer direções e sentidos diferentes. No momento em que fixa um só sentido, buscando a significação e a informação, a arte perde o seu poder de existir e resistir . LINS 2007


 


 

26 de fevereiro de 2010

Vagando pela dúvida

Perguntas e respostas possibilidades de caminhos.

Teatro é ficção?

Teatro é ficção, uma versão de fatos, um novo ponto de vista. Visto que não existe verdade, o teatro é tão ficção quanto qualquer versão.

“Senso crítico é aquele que permite fazer escolhas. Com o senso comum, não se constrói nada. É tudo pré-estabelecido.”

Que realismo é possível no teatro?

O realismo extra cotidiano

O teatro realista cria , faz um personagem normal (normalidade) para assim o público se identificar. E no decorrer da peça rompe as paredes da cultura.

Teatro, pra que?

“Para o público ser modificado você tem que propor algo interessante.A função do teatro é colocar tudo em movimento. A humanização da personagem pode provocar um distanciamento da realidade, fazendo assim com que as pessoas enxergarem a realidade.”

“O teatro tem o poder de mexer com a expectativa, mostrando os fatos e as possibilidades.”

O ator potencializa um estado vivencial, extra cotidiano.

24 de fevereiro de 2010

Lendas sobre a origem do Bosque Azul:

Essas lendas e suas variantes eram o material para um Live Action One Shot de Crônicas de Avalon: Beltain do Bosque Azul 522 D.C que, pelo visto, não acontecerá. Mas o texto ficou tão legal que não merece ficar na gaveta.


 

Lendas sobre a origem do Bosque Azul:


 

"Bosque Azul: Um bosque se destaca dos muitos outros do sul do país, onde as árvores cobrem a luz do sol e das estrelas, deixando apenas uma tênue iluminação azulada preencher o espaço entre os troncos. Este é considerado um lugar sagrado para ambos druidas e cristãos, um território neutro respeitado pelos dois grupos."


 

Crônicas de Avalon vol II: A Velha Britânia, Capitulo I: Geografia, Estregales, Importantes Pontos Geográficos : Bosque Azul (pág. 17). Pedro Borges


 


 

Antigas tradições folclóricas da Velha Britânia dizem que o Bosque Azul é o local onde as fadas galesas britânicas, as Tylwyth Teg ( filhas do deus da caça Gwyn ap Nudd ou do deus do Sol e da luz Belenos, nasceram ou apareceram pela primeira vez no mundo dos humanos. Vindas do mundo dos sonhos através de um portal que estaria escondida em uma pedra bem no meio desse bosque. Essas tradições cultuam uma grande pedra com um buraco no meio que fica no exatamente no centro deste santuário. Algumas dessas fadas teriam mais tarde voltado para lá e se tornado seres-arvores, chamadas de Entes adormecidos do Bosque Azul, em um profundo sonhar em um mundo harmonioso, bom e justo neste pais das Ilhas Britânicas. A real grandeza dessas histórias se perdeu no tempo e muito de seu teor simbólico foi esquecido pelos bardos e membros dos Cultos Antigos.


 

Conta uma lenda mais minuciosa que, na verdade, o bosque foi abençoado pela deusa da cura Grannos, a pedido do semideus Beli Mawr. Portanto, o bosque seria um santuário onde todas as rixas e todos os conflitos seriam resolvidos e inimizades e ressentimentos seriam curados. Inclusive o portal para o mundo feérico, de onde teriam vindo as Tylwyth Teg, seria a ligação regenerada dos dois mundos, material e onírico, lembrando o tempo em que eles seriam um só, separados pelo o grande pai dos deuses Sucelllos. Uma variação dessa lenda diz que na verdade foi a deusa das plantas Don, e não Grannos, quem de fato abençoou o bosque e é por isso que suas arvores protegem quem está do lado de dentro do que quer que aconteça lá fora. Ou ainda, que ambas teriam abençoado o local a pedido da grande mãe Modron, triste com a separação dos mundos imposta pela violência de seu finado marido, Sucellos. Enquanto o Arquidruida Agramyr (um dos maiores representantes da vertente Culto dos Dozes da antiga religião) discute com outros druidas quem é a verdadeira matrona celestial do Bosque Azul, aparentemente para a misteriosa matriarca do local, integrante do Culto à Deusa, tanto faz qual filha, mãe, dama, virgem, nome, avatar, arquétipo, ou face da Grande Deusa deixou seu toque pacífico, feminino e materno no santuário. Já os cultistas mais moderados argumentam que talvez o Bosque Azul seja a prova que os deuses chegaram a um algum acordo, pelo menos uma vez, em toda existência, e todos o abençoaram mutuamente. Mas essa idéia é amplamente descartada pela maioria dos crentes na fé antiga.


 

Uma lenda diferente, mais comum entre os supersticiosos camponeses que residem próximo ao bosque, ligados ainda aos Cultos Antigos, falam da ligação de outra ser fantástico com o bosque que não as fadas semi-deusas.O Grande Verme Rubro de Annwn ou, como é mais conhecido, o Dragão Vermelho de Estregales, o mesmo que teria enlouquecido o Rei Pellinore e que assombra a região pantanosa do país, seria o ultimo de sua espécie monstruosa. Praticamente fadado a extinção, esta criatura aterrorizante, para se proteger da ganância e crueldade dos humanos, escondeu seu próprio coração azul, cheio de bondade, enterrando-o no solo do bosque. Seria por isso que esta besta possui no buraco de seu peito apenas maldade e crueza. Também é dito que as raízes das arvores do bosque se infincaram profundamente no órgão auto-extraído da grande fera, refúgio de sua bondade perdida. Seria por isso que as arvores de lá passaram a exalam o amor e benevolência esquecidos que o Verme de Annwn. Dentro dessa crença, alguns poucos membros dos Cultos Sangrentos, a vertente mais bestial da fé pagã, mais especialmente os fanáticos bárbaros da tribo conhecida como Filhos (ou Servos) de Annwn das Montanhas Altas, sugerem que seja necessário fazer anualmente uma prática um tanto bizarra: Um coração de uma pessoa bondosa deve ser extraído ritualisticamente em sacrifício ao verme nos Pântanos do Dragão no solstício de inverno, transportado para o bosque e enterrado á meia noite da próxima lua nova em baixo para alimentar a bondade do local e assim evitar a ira do monstro sem coração. Quase todos outros devotos dos Cultos Antigos discordam dessa idéia dos Filhos, achando que tal sacrifício só alimentaria o buraco de maldade do dragão e o corpo-sombra do ser sacrificado ficaria vagando pelos arbustos e árvores do bosque para todo sempre. Todos, entretanto, concordam que, no caso desse monstro realmente existir, o bosque teria alguma espécie de influencia sobre ele. Segundo os relatos daqueles que sonham e até já o viram, ele evitaria a região sul de Estregales, onde está este santuário, ao voar de seu refugio nas montanhas para dentro de seus pântanos e assim de volta sucessivamente. E ainda mais, talvez esteja realmente escondida no interior do santuário a única a solução para se lidar a besta de uma vez por todas (ou então, numa visão bem mais cética, para se livrar do fanatismo sanguinolento dos bárbaros Servos de Annwm e seus sacrifícios humanos). Especula-se, dentro desse ponto de vista, se a grande pedra (o suposto portal das Tylwyth Teg) seria o esconderijo do coração petrificado desse ser fantástico. Ou pior ainda, seria o próprio coração petrificado, e o buraco seria uma peça de encaixe no corpo do monstro. Se isso for verdade, cultuar a pedra poderia estar aumentando o poder da fera, ou pior ainda, a ausência de um culto constante ao órgão extraído poderia vir a enfraquecer gradualmente a magia do santuário. Mais um motivo para se temer os sacrifícios exigidos pelo druida "Boca de Annwn" da Tribo dos Filhos do Verme.


 

Já as lendas tardias cristãs tentam associar o Bosque Azul como sendo o local onde José de Arimatéia teve um presságio divino. Em suas andanças e peregrinações pela Britânia, exausto e amedrontado com os demônios pagãos que assombravam sua viagem, o santo teria tido uma visão da Virgem Maria, enquanto descansava e rezava, protegido pelas árvores do santuário. O local então seria um refugio natural da Fé Verdadeira, ponto de partida entre o diálogo desta com os equivocados pagãos, que cultuam a legião de Satã disfarçada de deuses britânicos. Alguns cristãos celtas, que aceitam os deuses antigos como máscaras da Santíssima Trindade, afirmam que este mesmo José, antes de fundar a primeira igreja na Cornualha, teria evangelizado uma pequena tribo de selvagens, com pinturas azuis nas suas faces e corpos, que viviam no interior do bosque, que na época era um descampado. Mais tarde, estes selvagens catequizados, ao serem enterrados ao modo cristão, tornaram-se as próprias arvores protetoras do local, como que por milagre divino. Essas árvores assim protegeriam tanto os pagãos quanto os cristãos, tanto por herança quanto por devoção, aguardando a vinda do Messias no Juízo Final para voltarem a andar novamente, agora como Entes do Senhor. Dentro dessa visão, a grande pedra perde sua importância pagã ou mesmo ganha um status cristão, passando a ser o altar onde o peregrino cristão teria batizado e convertido os selvagens.


 

Conta ainda uma tradição iniciática recente de Avalon, cheia de significados místicos intricados, que a avó de Viviane encontrou aqui um nobre cavaleiro cristão (presumivelmente o próprio José de Arimatéia, visto que a antiga fé não nega a existência da nova, ao contrario do que fazem a maioria dos cristãos). Ambos se teriam se apaixonado e se amado loucamente, sob a proteção do bosque, durante todo um ciclo lunar. Somente após abandonarem o local, retornando para seus séquitos, teriam se desentendido seriamente, terminado assim suas relações amorosas. Este seria o real motivo, segundo essa tradição, da rixa entre os Cultos Antigos e a Santa Igreja. Qual o significado dessa paixão arrebatadora e lasciva? Porque um ciclo lunar inteiro de amor? Qual o verdadeiro desentendimento teria causado o rompimento entre a então Dama do Lago e o Peregrino Cristão? Só os iniciados da Ilha de Avalon saberiam a resposta. De qualquer forma, o miasma criado pelo incessante amor entre pagão e cristão teria inundado a terra do Bosque Azul e este seria o motivo de seu território neutro, fértil e fecundo. Variações dessa tradição, passada pelos antigos devotos do paganismo agora convertidos ao cristianismo celta, dizem que o Cavaleiro em questão seria realmente José de Arimatéia. Este teria caído em tentação ao se deitar com uma bruxa pagã que o teria seduzido com suas artimanhas e feitiços diabólicos. Ao perceber o que fizera, teria se arrependido, interrompendo o coito com a prostituta do demônio, fugindo apavorado e nu para Cornualha, onde fundaria sua igreja como prova de sua vergonha. Talvez, segundo estes, o bosque teria então em sua terra seu solo a semente de José, que ele não teria deixado dentro do útero da concubina de Lúcifer, mas esparramado pelo solo durante sua fuga. A resposta dos sacerdotes de Avalon para essa corruptela de sua lenda afirma que a então futura Matriarca da ilha não quis se subjugar aos conceitos machistas, intolerantes e desiguais do santo cristão (nem nos ideais e nem no leito de amor) e ela sim foi embora do bosque, abandonando com o coração partido para de volta para Ynis Wydryn após satisfazer seu desejo pelo forasteiro. E assim, teria escorrido de suas pernas nuas, enquanto partia, a mistura de sua fecundidade com a do santo, se esparramando no chão, adubando o solo das árvores com amor e fé de ambos Cultos e Igreja. Outras sacerdotisas, essas um pouco mais sarcásticas, dizem que, na verdade, o cristão teria perdido sua potencia sexual ao final do ciclo lunar e por isso sim fugido de vergonha deixando Viviane frustrada. De qualquer forma, com o efeito, a grande pedra apenas simbolizaria o local onde se deitaram macho e fêmea, e o buraco no centro apenas serviria para lembrar a falta desta união carnal e amorosa entre os representantes de ambas as religiões da Velha Britânia.


 

Numa versão bem diferente dessa historia, contada pelos seguidores de Morgana e pelos poucos peregrinos e viajantes que passaram pela sua Torre Solitária, revelaria que o lendário Arquidruida Balise, poderoso tutor do próprio Merlim, teria raptado a irmã de José de Arimatéia dos braços do próprio marido cristão para tomá-la como escrava-amante. Para se esconder dos estrangeiros seguidores do Cristo, o hábil raptor teria sacrificado uma das raríssimas pedras mágicas (especificamente de magias de proteção e ocultamento), espalhando seus pedaços por todo o bosque. Uma variação dessa lenda ainda diz que a pedra despedaçada era, na verdade, ainda mais rara: Seria uma das pedras de magia de amor, para assim poder aproveitar bastante suas núpcias com sua amante cativa. Como quem conta um conto e aumenta um ponto, já se especula que teriam sido os dois tipos de objetos mágicos sacrificados pelo lascivo feiticeiro em nome de seu desejo. De qualquer maneira esta história ainda diz que José e seu cunhado, para salvar a irmã raptada, guiados por um espírito-protetor que os cristãos chamam de Anjo, espalharam também pelo bosque alguns pedaços desfiados da própria mortalha de Jesus, que o santo traria sempre consigo de Jerusalém, no intuito de protegê-la das magias amorosas do mítico Arquidruida. Por fim, uma ultima variante, bem mais recentemente, surgida junto com o inicio da Demanda do Santo Graal, conta que na verdade o santo de Arimatéia e seu cunhado teriam na verdade derramado quatro gotas do conteúdo do Cálice Sagrado nos portais dos elementos nos quatro cantos ou direções do Bosque Azul, (Norte - Ar, Sul - Água, Leste - Terra e Oeste - Fogo). Fazendo isso estaraiam santificando o local para tentar imunizar as bruxarias luxuriosas de Balise. Uma grande lasca da pedra mágica do druida, um grande pedaço da mortalha do Messias Crucificado ou ainda uma quinta gota do Cálice poderia ter sido derramada no buraco da pedra sagrada do santuário. Ou ainda, num exagero, todas essas coisas juntas.

    

Independente de sua origem factual existe, escondida em todas essas histórias, lendas e suas variantes, uma tentativa real de se explicar não só a proteção divina do bosque, mas principalmente a tentativa de dar um porquê do local ser igualmente sagrado para ambas grandes devoções da Velha Britânia. Mais ainda: porque lá, aparentemente, tanto os feitiços e magias pagãs quanto a fé verdadeira e ritos dos cristãos são igual e poderosamente beneficiadas. Oráculos e Santos de grande sabedoria concordam em apenas um aspecto: Lá, a força criativa do mundo se protege da entropia que a tudo quer findar, enquanto que, fora deste santuário, a realidade se torna cada vez mais escassa, banal, cética, cínica e moribunda.


 

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23 de fevereiro de 2010

“Praia de Copacabana” sem 51 clichês

Desço no sentido contrário ao dos carros da minha moradia de concreto. Falo da Rua República do Peru, que segue até a Toneleros. Vou para o outro lado. Sou imediatamente bombardeado por sensações: nos pés, primeiro o solo duro de pedra portuguesa, depois é macio, até ficar úmido; no corpo, a maresia e luz intensa preparam-me como a um peixe assado; já o som que ouço é aquele mesmo de quando aproximamos uma concha aos ouvidos e fechamos os olhos. E me deparo então com a doce verdade: estou no meu resort gratuito, meu oásis pessoal. Estou, por fim, em casa. Sigo nesse estado sinestésico de Posto em Posto até a sede do Marimbás. Chego a ensaiar uma ida ao Arpoador, mas não me arrisco a tanto. Retorno ao que me é certo e conhecido. Contemplo tudo a minha volta, sou aquilo todo, de uma só vez. De repente, meu olhar é capturado pelo vôo livre e distraído de uma gaivota. Sou como ela, na eminência do mergulho, beirando o abismo, donde tiro meu alimento para poder voltar a voar. E sobreviver a mais um verão.

“Praia de Copacabana” sem 51 clichês
Rio, 10 de Janeiro de 2007

21 de fevereiro de 2010

Sonho do Pai - dialogo totalmente inspirado em um conto de F.Kafka

Aposento de vidro a esquerda do alto da parede, entre o portão e o castelo, em Berlim de cancelas.

- Senhor, não temos muito tempo! Logo o seu filho completará o trajeto...

- Nossa, como foi bom subir até aqui... Espere, o senhor é cego?

- Sou apenas um secretário...

- Que extraordinário! Ah, posso aplicar essa vacina aqui, em mim mesmo, então?

- Pode, mas primeiro devo lhe falar... Não, melhor deixar que eu aplique no senhor...

- Obrigado, mas eu sei como fazer sozinho. Ai! Bom, pronto, pode falar.

- Logo seu filho estará aqui, o doutor quer que o senhor diga a ele que...

- Deve ser um professor muito ocupado, mas que generosidade lhe enviar! Extraordinário, ele...

- Isso não importa, mas sim a mensagem! Diga ao Franz que...

- Olha! Daqui posso vê-lo, ele está conseguindo subir. Que danado. Vou lá falar com ele. Filho!

- Não, espere... Sr. Kafka? Já se foi... Diabos! Bem que o doutor disse.


Rio, 11 de Janeiro de 2007

20 de fevereiro de 2010

Sámkhya

Texto antigo, perdido no meu backup

Sámkhya é o dárshana (ponto de vista) do hinduísmo que constitui o respaldo teórico do Yôga. Essas duas filosofias (teórica e vivencial) estão conectadas de maneira tão intrínseca que mal podem ser estudadas separadamente. O Yôga, metodologia prática, busca através de técnicas o que o Sámkhya procura pelo conhecimento teórico: a libertação.

Para alcançar o estado de libertação denominado kaivalya, a consciência faz o caminho de volta da criação: o retorno ao discernimento entre púrusha e prakrití. Vale notar que referimos aqui à criação do mundo como um ato psíquico, que não acontece no tempo e no espaço. Púrusha é a essência final (ou primitiva) do homem. Sendo consciência pura, ele é o observador imóvel que contempla em silêncio o movimento da prakrití. Ele é distinto e independente. O púrusha é o motor imóvel da prakrití, a natureza primordial.

A prakrití é a única que se manifesta. Ela o faz por influência do púrusha e através da emissão de um princípio (tattwa). Este princípio gera outro princípio e, assim, forma uma névoa de manifestação que esconde o púrusha, embora este permaneça impassível diante de tal espetáculo de transmutação. Os tattwa são, portanto, etapas da manifestação do universo. Cada etapa, cada tattwa deve ser superado pelo yôgin para que este alcance, novamente, o púrusha.

O primeiro tattwa, portanto a primeira manifestação da prakrití, é chamada buddhi, inteligência pura e informal, supra-racional e supra-individual, que consegue discriminar o púrusha da prakrití. Buddhi se desdobra em ahamkara, a noção do eu (ich freudiano, vulgarmente ego), que introduz na consciência a oposição entre sujeito e objeto. A partir daí, inicia-se a grande confusão, pois o eu, que é prakrití, natureza, pensa que é púrusha, consciência. Ou seja, ele confunde o self com os estados psicomentais. A partir de então a prakrití se manifesta em fenômenos objetivos e psicofisiológicos que se diferenciam pela fórmula dos guna (atributos), isto é, de acordo com a predominância de cada guna, que são: sattwa, rajas e tamas.

O guna sattwa tende à iluminação, rajas gera atividade e movimento e tamas é o fator de resistência e obstrução. Qualquer coisa se esforça por realizar o seu estado "sáttvico", seu ser, superando sua condição "tamásica", inerte, através do esforço "rajásico", ativo, de vencer obstáculos. Tais atributos nunca se anulam, estão sempre presentes em toda manifestação de prakrití, mas têm uma relação de equilíbrio e tendência. O púrusha, por não ser parte da prakrití, não possui atributos.

A ignorância do eu é a causa de todo sofrimento. O objetivo do Sámkhya e do Yôga é suprimir o sofrimento ou as confusões da consciência através da libertação (moksha). Não cabe a nenhuma destas filosofias questionarem o porquê da confusão entre consciência e manifestação e aí está a sua praticidade. Tal questionamento é inútil, pois ultrapassa a capacidade da compreensão humana. O objetivo de ambos os dárshanas é fazer o caminho inverso através dos tattwas, superando cada etapa, alcançando estados de consciências mais elevados até superá-los, superando o eu e vislumbrando o discernimento entre púrusha e prakrití.

É importante esclarecer que a prakrití não tem um fim em si. Sua finalidade é o púrusha. Sua manifestação afasta o homem de seu conhecimento primitivo, mas deixa sempre o caminho livre para aquele que é capaz de enxergar o caminho da libertação. O impulso da prakrití é orientado para a libertação do púrusha, como se tudo fosse um grande espetáculo cíclico cuja razão de ser não somos capazes de compreender.

9 de fevereiro de 2010

Ações do AutoClaudius

Ações da cena do AutoClaudius (ver post anterior)
O ator está semi despido, sem figurino, sem proteção. Ciceroneia a entrada da platéia, apresenta-se como um ator desconstruído, uma marionete quebrada e falha. Exprime raiva como um lobo ferido pelo tiro dos caçadores. Uiva para a lua.
O ator expõe seu cenário-carcaça. Desfaz e faz que nem lhe viu, começa a manipular as peças do tabuleiro. Arma a arapuca com a qual seu irmão-pai será pego. Seus sentimentos são flor, mas sua pele é grossa e de espinhos. O ator é rosa vergada como bambu ao vento, parábola de Confúcio na mão de Buda. A maquina da cabeça é grande, a do pau é maior, mas a do coração não tem tamanho. O ator agora é um rio de sangue, se liquidificando sobre as bandeiras.
A revolta ocupa a cena. A luz torna-se negra, o ator ascende a extensão, saca da espada como um Arthur bastardo, um Mordred nobre. Ele gira a espada por entre as eras, e destrona a caveira sem corpo. O escalpo dos miolos do Rei esparramados pelo chão eram as possibilidades aprisionadas em sua falida majestade.
O ator ocupa o espaço do Rei e se ocupa de lidar com o seu reinado cadáver. Corrompe-se enquanto rompe as barreiras e monta a ratoeira desmontada. Ele é a força agora, a repressão, o novo líder, vazado.
Arrepende-se, reza de joelhos por redenção, mas sabe que as portas do céu estão fechadas para usurpadores. Maquiavel bem que o avisou. Yôda também. O lado negro é o avesso do avesso do avesso do avesso. O cenário está montado. Agora a musica entra para começar o fim.