6 de junho de 2010

Como era a gíria no teatro de 50 anos atrás


Em 1959 o dramaturgo Paulo de Magalhães escreveu um pequeno compêndio "Como se ensaia uma peça". No final do livro vem um interessante glossário de gíria Teatral. Alguns termos continuam até hoje como Canastrão, Galharufas, mas alguns tem explicações peculiares e outros me são inteiramente novos. Separei uns casos:

Formigão – Ator novato. (Nota: Qual seria o termo hoje em dia? Calouro?)

Caco – Colaboração improvisada do Artista ao texto da peça. (Nota: Gostei da erudição. Na próxima vez que colocar o caco vou lembrar essa!)

Corneta – Piada improvisada que não dá resultado cômico.

Dar-Um-baixo – Fracassar em cena.

Carroção – Ficar calado, por esquecimento do texto, provocando longa pausa cênica. (Nota: hoje seria dar-branco. )

Faltar-Em-Cheio – Não entrar em Cena no momento devido, deixando atônitos os Artistas contracenantes (Nota: hoje seria Perder a deixa de entrada?)

Encher-a-cena – Compôr, improvisando, frases longas que dêem tempo ao Artista, que "está faltando à Cena", de entrar no Palco. (Nota: Hoje seria Salvar o colega? Encher linguiça?)

Crác – "Sentir o crác" quer dizer enervar-se tremendamente, perturbando-se em Cena (Nota: O "crác" de hoje em dia ainda é uma droga mas é bem pior!)

Porão – "Foi para o Porão", expressão que significa fracasso da peça. (Nota: Foi pro saco? Babou?)

Morrer-Vestido: Fracasso pessoal do Artista na interpretação do "papel"

Abafar - Fazer sucesso (Nota: E eu achava que isso era uma gíria recente)

Maioral – o melhor Artista

Piorál – O pior Artista (Nota: Hahaha)

Engrolar – Articular mal as "falas" de "papel" (Nota: Falas de Papel é ótimo)

Muleta – Atriz ou ator importante que, cansado, impõe para o marido ou espôsa, bons contratos e bons "papéis" (Nota: Ainda existem muletas, mas do jeito que a coisa tá o cansado e sem inspiração que se apóia nela também trabalha pra dobrar a renda)

Espinha - "Meter espinha" diz-se do Contra-Regra que aumenta o preço das compras de pertences da cena em proveito próprio (Nota: Acne comum ainda e principalmente na produção).

Fofoca –Encrenca , fuxico , intrigo (Nota: Quem diria que esse termo veio do teatro).

26 de maio de 2010

Tempo sem poesia


Cria e recria

Morre um pouco

Bebe um pouco

Tenta se equilibrar


 

Não consegue, tenta de novo

Essa angustia tem que passar


 

Foge, corre, se toca, se esquece

Retorna pro conhecido

Tem dias que é só chuva

Tem dias que nem saindo


 

A violência passa

Mas marca, marca


 

Tenho um que rio corre

E um eclipse que se desfaz


 

Contentamento, conte-tanto

Ment – o

O

I!

18 de maio de 2010

Arquétipos das estruturas míticas nas histórias e roteiros


Assim que entramos no mundo da mitologia e das histórias fantásticas, observamos que há tipos recorrentes de personagens e relações: heróis que partem em busca de alguma coisa, arautos que os chamam à aventura, homens e mulheres velhos e sábios que lhes dão certos dons mágicos, guardiões de entrada que parecem bloquear seu caminho, companheiros de viagem que se transformam, mudam de forma e os confundem, vilões sombras que tentam destruí-los, brincalhões que perturbam o status quo e trazem um alívio cômico. Ao descrever esses tipos comuns de personagem, símbolos e relações, o psicólogo suíço Carl G. Jung empregou o termo arquétipos para designar antigos padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana.


Jung sugeriu qu
e poderia existir um inconsciente coletivo, muito semelhante ao inconsciente pessoal. Os contos de fadas e os mitos seriam como os sonhos de uma cultura inteira, brotando desse inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagem parecem ocorrer, tanto na escala pessoal como na coletiva. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos e das mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro.


O mitólogo Joseph Campbell falava dos arquétipos como se fossem um fenômeno biológico, expressões dos órgãos de um corpo, parte da constituição de todo ser humano e de sua vivência. A universalidade desses padrões é que possibilita compartir a experiência de contar, ouvir e viver histórias. Um narrador escolhe instintivamente  personagens e relações que dão ressonância à energia dos arquétipos para criar experiências dramáticas reconhecíveis por todos. Tomar consciência dos arquétipos só pode aumentar nosso domínio do ofício dramatúrgico e conseqüentemente do ator. 


Mas vale ressaltar que os arquétipos não são papéis fixos que, uma vez definidos não sofrem mutações ou não transitam na história. São sim na verdade funções que eles desempenham temporariamente para obter certos efeitos no enredo. Olhando assim, como funções flexíveis de um personagem e não como tipos rígidos e/ou mesmo estereotipados de personagem, é possível liberar a narrativa e a dramaturgia. Isso pode explicar como um personagem numa história pode manifestar qualidades de mais de um arquétipo. Pode-se, portanto, pensar nos arquétipos como máscaras, usadas temporariamente pelos personagens à medida que são necessárias para o avanço da história. Assim um personagem pode entrar na história fazendo o papel do arquétipo do arauto da aventura, depois trocar a máscara e funcionar como um bufão ou pícaro, trazendo a crítica ou o riso, ou um mentor para empurrar o protagonista para a aventura ou uma sombra para tentar destruí-lo.


Outra maneira de encarar os arquétipos clássicos é vê-los como facetas da personalidade do protagonista, do herói. Os outros personagens emanam possibilidades para esse herói- boas ou más. Às vezes um protagonista percorrer uma história reunindo e incorporando a energia e os traços de outros personagens. Aprende com eles, de forma direta ou indireta e vai fundindo tudo até chegar a ser um ser humano completo, que pegou algo de cada um que foi encontrando pelo caminho.


Os arquétipos também podem por fim ser visto como símbolos personificados das várias qualidades humanas. Como as cartas dos arcanos maiores do tarôt, simbolizam os diferentes aspectos de uma personalidade humana completa. Toda boa história é uma viagem para outro mundo a partir do mundo e da história humana total, da condição humana universal de nascer neste mundo, crescer, aprender, lutar para se tornar um indivíduo, se sacrificar pela coletividade ou por um ideal maior e morrer para poder renascer de outra forma. Os mitos trazem essa característica que emprestam para qualquer história na sua criação: A possibilidade de poderem ser percebidos como metáforas da situação humana em geral, com personagens que incorporam qualidades universais arquetípicas, que convidam para o dialogo para serem vivenciados e até compreendidos para o grupo, assim como para o individuo. E os mitos são esse campo onde giram esses arquétipos, como referências que ressoam o que é absolutamente transcendente à experiência humana.

7 de maio de 2010

Cultura no Brasil (datado mas ainda super pertinente)

Hoje, as obras culturais não mais repercutem mais na consciência das pessoas.

Houve um tempo em que uma obra prima do teatro ou grande filme influenciava a cultura do Brasil. Os acordes de João Gilberto mudaram a musica; “Terra em transe”, mudou não só o cinema mas criou o tropicalismo, influenciou Zé Celso – que criou o rei da vela, que influenciou o teatro e a contracultura, que descaretizou a solenidade artística.

Hoje, as obras culturais não mais repercutem mais na consciência das pessoas. A cultura mudava a política; “hoje”, como dizia o grande Oswald de Andrade, “a bosta mental é tanta, que nada ilumina o pensamento nacional”. Fica tudo no gosto ou não gosto.

Nelson Rodrigues mudou a moral das pessoas. Guimarães Rosa, mudou as palavras. Há pouco, o Gerald Thomas montou uma obra-prima com o Nanini, “Circo de rins e fígado”. Alguém se mexeu? Não.

Agora, esse espetáculo do Felipe Hirsch, em cima de textos do extraordinário Dalton, deveria diferenciar nossas vidas. Mas a arte de mercado só nos compacta num grande formigueiro medíocre.

Essa peça é imperdível. E quantos a perderão? Neste país, unificado pelo horror e desesperança, a arte e a beleza são as poucas portas de fuga que ainda temos.

Fujam, para dentro.
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Arnaldo Jabor

28 de abril de 2010

"FLOR-DE-MAIO" de Rubem Braga

"FLOR-DE-MAIO
Entre tantas noticias do jornal — o crime do Sacopã,o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada “flor-de-maio” está, efetivamente, em flor.

Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais “flor-de-mato , e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa “flor-de-maio”.

No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as “flores-de-maio” do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a “flor-de-maio” — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

Ir só, no fim da tarde, ver a “flor-de-maio”; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica."

Será que tem flor-de-maio nesse mês, vô ?