31 de outubro de 2014

Verso de uma perna só


A perna que falta
Presa no grilhão
Escravizada, então
Pra trás foi deixada
Liberdade e alegria
Ainda que tardia
Pular à vontade
Fazer traquinagem
Com muita simpatia

A liberdade custou uma perna?
Azar da perna. Azar do escravagista.

Primeiro Black Block contra a tirania
Levou a agua de Sampa
E pode levar a do Rio
Pra expor o descaso e a apatia
As travessuras do Saci são um ato politico
Contra a civilização da selvageria.

Vivam todos os sacis
Trique , Saçurá, Tererê
Do Poá, Sacerê, Taterê
Todos os esquecidos

Viva também aquele famoso
De gorro vermelho
Piléu de sangue liberto
Pitando fumo incorreto
Viva o Saci-Pererê
Alegoria do livre pensar
Redemoinho solto no ar
Brazuca, “Uh Teterê “

Hallowen também é legal
Já que é uma festa comercial
Compramos nosso lugar sacional
Então viva o Trickster Nacional

30 de outubro de 2014

"Tentei ficar quieto, mas não me aguentei.

Sou de uma família tradicional e de classe média alta brasileira, e fui o único a votar na Dilma.

Nos últimos anos tive o privilégio de morar por 2 anos em Estocolmo, trabalhando e estudando. E digo o que pouca gente imagina: na maior parte da Suécia não existe luxo.

Eu morei num prédio onde moravam médicos, lixeiros, músicos, advogados, e atendentes de super mercado. Juntos. Eu vi pessoas muito ricas andando de bicicleta no inverno, e aproveitando a vida comendo sanduíche sentado no chão de um parque (não num shopping). Donos de agências que atendem Pepsi, NBA, RedBull almoçando comida feita em casa num tupperware sentados na mesma mesa que eu que era imigrante e o Estagiário Assistente de Escritório.

Eu vi meninas como essas da foto andando sozinhas às 3h da manhã em áreas vazias, olhando o mapa no iphone usando shortinho meia bunda e regatinha que mostra o lado do peito ouvindo a música nova da Lykke Li no último volume e cantando. E passaram do meu lado na mesma calçada sem nem atravessar a rua. Sem medo.

Sem.
Medo.

Tudo isso, que nós brasileiros invejamos tanto e dizemos que ‘lá fora é muito melhor’ só se consegue com uma coisa: igualdade social.

A Suécia não chega a ter 10 milhões de pessoas, e a igualdade lá vem sendo praticada desde o início.
O Brasil tem 200 milhões e a desigualdade aqui vem sendo praticada desde o primeiro instante. O que isso implica?

Implica que se você, pessoa que gosta tanto da Europa, quer que o Brasil fique um pouco mais parecido com lá, abraçar a causa da igualdade social é uma necessidade. E ela pode acontecer de duas formas: rápido ou devagar.

Rápido está fora de questão, mas devagar é sim possível. Eu pergunto: Qual é o problema se o país precisa crescer 1% ao invés de 6% para que o Brasil saia do mapa mundial da fome? Ou para que o analfabetismo acabe? Ou o saneamento básico?
Você se preocupa mais com o quanto cai na sua conta do que com quantas pessoas conseguem comer, escrever o próprio nome ou defecar em um lugar decente?

Crescimento de economia é uma coisa, é cálculo do PIB que soma em valores monetários todos os bens e serviços finais produzidos no País.
Já o IDH mede expectativa de vida, analfabetismo, educação, padrão e qualidade de vida e entre outras coisas também o PIB per Capita.

‘O país tem que voltar a crescer’, foi slogan de uns e é opinião de todos, mas o que é ‘crescer’?

Crescer é PIB para poucos como sempre foi no Brasil?
Ou crescer é IDH, com PIB mais distribuído para todos?

O Brasil não tem meios de gerar mais dinheiro do que o que já circula dentro dele (seria lastro para controle) ou seja, a riqueza que existe dentro do Brasil precisa sim ser melhor distribuída para que você possa ter aqui, aonde suas netas e netos irão nascer, uma qualidade de vida mais parecida com a da Europa. Sem medo.

Sem.
Medo.

Mas como dinheiro não cresce em árvore, pra que isso aconteça, tem que mexer no que é teu.
Só que quando alguém fala em mexer no que é teu, ninguém mais quer igualdade social, e todo esse papo vai por água a baixo. Certo?

Certo.

Amigo, a verdade é: egoísmo não combina com igualdade social. Ninguém gosta de dividir as duas últimas preciosas bolachas favoritas.

Se você quer ser egoísta, ao menos seja sincero e diga que está pouco se fodendo para os humanos aqui do Brasil do sul ou do norte que torcem junto contigo pro Neymar Jr. na Copa do Mundo. Que tanto faz se eles sabem ler, escrever ou tem o que pôr na barriga. Então faça sua trouxinha de dólares e ajude a sustentar alguma ONG que ajuda algum 'vagabundo' na África. Não vou te julgar ou tentar te convencer. Mas é isso o que penso."


Gregory Zancanaro Carniel 

O mundo das opniões é o mundo fácil.

O mundo das opniões é o mundo fácil . Trabalhoso é conhecer para saber criticar e ai sim apreciar, desdenhar é/ou valorar . Eu adoro ter trabalho por isso me dou o trabalho de sempre pesquisar . Não critico quem não faça , não sou bom de esperteza, meu grave defeito na sociedade do espetáculo que estou inserido e tiro meu sustento. Mas de fato não me interessa o acúmulo de coisas, me interessa o acúmulo de pontos de vista . Assim posso melhorar sempre como pessoa e como artista http://youtu.be/TsJ9gucPmjA 

Deuses e árvores

Meu vô-drasto" Antonio Olinto dizia : (...) De minha experiência na África, aprendi que a árvore é sagrada. Certa vez, no reino de Keto, visitando meu amigo Ewé, notei que uma árvore estendera um de seus galhos na direção de uma parede alta de sua casa e comentei: "Ewé, você vai ter de cortar aquela árvore, senão ela derruba sua casa".
Meu amigo me olhou espantado e perguntou: "Derrubar a árvore? Eu não posso derrubar aquela árvore". Eu quis saber por que. Resposta: "Um Deus mora naquela árvore". Depois de um ligeiro espanto, indaguei: em toda árvore mora um Deus?
Diante da resposta positiva perguntei: "E se vocês tiverem um terreno com várias árvores e precisarem do lugar para, digamos, construir uma estrada?" Resposta:
"Neste caso, a gente faz uma festa para as árvores, dançamos diante delas e pedimos que os deuses mudem para outras árvores próximas, porque é possível uma árvore ter mais de um Deus""(...)
Não fizeram festa, não dançaram e nem construirem casas ou estradas.
Cortaram uma morada de deuses para fazer demagogia. ‪#‎EPICFAIL‬
http://oglobo.globo.com/brasil/arvore-cortada-para-dar-lugar-propaganda-sobre-preservacao-ambiental-gera-polemica-14398152?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo#ixzz3HY5icKjL

30 de novembro de 2013

É de toda a arte que seria preciso dizer: o artista é mostrador de afetos, inventor de afetos, criador de afetos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é somente em sua obra que ele os cria, ele os dá para nós e nos faz transformarmos com eles, ele nos apanha no composto.  DELEUZE 2005

Sofre o ator que se preocupa em “chegar a certa emoção”. Lógico, cada um tem seu caminho, sua forma, seu método...  Mas se o teatro hoje não tem incentivos para concorrer com outras artes midiáticas que são mestras em “representar a realidade”, ou mais, se “representar a realidade” é um ato de se concordar com o que aqui está,  a falida política vigente de opressão velada, que se diz apolítica, então só é arte anárquica àquela que corre por outro caminho.

Qual outro caminho? Não sei, até aqueles que se dizem “contemporâneos” ocasionalmente se rendem também ao sistema, dispostos a se sustentar, enquadrar seus projetos em leis de incentivo fiscais absurdas e desumanas... Por uma questão de sobrevivência.

Pensando bem, sempre acreditei que a mudança vem de dentro e não de fora, tentando se empurrar algo em cima do que ai esta. Mas também não sei se só mudar alguns detalhes hoje em dia basta. Percebo que se torna pouco ousado, pouco renovador.

Mas ainda sim – não sei se para o publico em geral, mas pelos para alguns espectadores, artistas performáticos e para mim - o teatro transforma. Seja o must do “contimporaneu”, seja o dito teatrão com escapes visuais e truques de ilusionismo, ainda sim, com a presença do ator (e só não uma ilusão de ótica somente projetada numa tela (sic)) ainda sim isso de fato me transforma, especialmente porque sou absolutamente cara de pau de ir conversar e sentir os atores após quaisquer espetáculos.

Outro dia quando um espectador agradeceu um ator pelo espetáculo que assisti, por um segundo eu também quase disse “de nada”. Está tão empregado em mim o trabalho sobre a minha senciência, sobre a minha capacidade de sentir, que me considero parte do espetáculo, mesmo somente como espectador. Quase ou parecido com “espectador emancipado”, como propõe/analisa/ensaia (sei lá o termo) o Rancière:  Que de faço pertenço ao espetáculo.

 Alias, isso também se dá na frente da lente. Levei o teatro, regulando devidamente sua dimensão para o mais minimalista dos fazeres, para o trabalho para câmera. Tornei aquele pequeníssimo espaço um palco.
Não fiz nada demais, muitos fizeram e fazem isso. De fato para mim, independente da linguagem, estilo, forma, mídia, local, veículo, a arte do ator é se deixar transformar pelo mundo ao seu redor.  É essa vivência, essa entrega. Por isso que duvido do status de celebridade de um modo geral. Não que um artista não possa ser celebre, há muitos mas a celebridade que ai está sustenta o status quo, normatiza, atesta, impõe o sistema que ai está. Ele não convida, não instiga debates, não propõe possibilidades a partir de sua afetação com o mundo em suas muitas faces, apenas a que precisa ser vendida.
Talvez não a celebridade, mas o sistema que regula a celebridade, não posso falar de dentro do status de celebridade, pois não o vivenciei plenamente, apenas convivi. Mas é desse sistema que falo contra quando o ator tem que se sensibilizar, se deixar alterar e vivenciar a cena, pois esse sistema do falso conforto e da falsa liberdade, vulgariza a vivencia, impede o questionamento, repudia a dúvida, recrimina o erro, descarta a alteridade.
Sei lá, viajei. Queria falar sobre ação em detrimento da reprodução e acabei desviando o assunto. E acabei falando sobre outro tipo de resistência que não só à relacionada ao trabalho do ator... Ou talvez sim. Sei lá.

Leia algo sério e melhor sobre isso:

Conservar e resistir difere radicalmente de fixar um referente e reproduzir. A arte inspira-se no vivido, nas relações dos corpos, nas afecções e nas percepções para extrair afectos e perceptos. Os seres de sensação, ao se conservarem, abrem-se para a produção de novos devires, novas possibilidades de existência. A arte resiste ao desterritorializar o sistema de opinião, talhando fendas no guarda-sol que nos protege do caos. Ela é contraponto que vence a opinião e extrapola o vivido. Arte-fabulação, cujos os seres de sensação, seres de fuga tornam-se traços de expressão possibilitando a metamorfose, já que inventam novos mundos, compõem universos capazes de rasgar os significados, “estourar as percepções vividas”, percorrer direções e sentidos diferentes. No momento em que fixa um só sentido, buscando a significação e a informação, a arte perde o seu poder de existir e resistir. LINS 2007

17 de setembro de 2013

Interúdio do Transylvania Chronicles

Interúdio do Transylvania Chronicles , jogo de 2006
Gênova –
- "Quero dizer, acho que foi um pesadelo..." A Tzimisce olha da sacada para a rua, com o semblante pesado. "Não haveria motivo nenhum para sonhar com Ana se não fosse por isso..." ela fita a escuridão das ruas, procurando alguma presa humana com seus sentidos aguçados.
"Não se subestime, Milenna, você já teve esse tipo de premunição antes" - Lorde Marcus se aproxima e toma sua mão "alem disso, você compartilha o mesmo vitae Grimaldi de família, e apesar de ela nem saber que você ainda “existe”, vocês são primas cresceram juntas..."
A Tzimisce sorri com seus caninos salientes: "Não sou mais aquela pequena Revenante há anos, meu bom amigo, não desde que meu sire me escolheu como sua cria e mesmo após sua morte no levante contra os anciões, mesmo que eu tenha bebido o sangue do coração dele e me tornado sétima geração de Caim, com sua ajuda..."
Ele completa sua frase " ....e que seus os poderes do sangue de suas vidência tenha se amplificado..."
Ela interrompe o Lasombra "... me assim dando pesadelos sobre primas de consanguínea cainita. De fato essa existência é amaldiçoada por inteiro. Como é grande a ironia da Maldição do Primeiro Assassino" Seus olhos se fixam em um mendigo que anda cambaleante pelas ruelas, parando para urinar.
"De fato, minha cara, mas antes ser o caçador que a caça" o corpo de Lorde Marcus começa a ficar coberto pelas sombras da noite. Algo de quase vivo nessa escuridão parece obedecer a sua vontade "Mas não nos preocupamos em filosofar sobre nosso estado agora e sim de sermos o que nós somos."
A escuridão é quase total na sacada, que de repente está completamente banhada de vermelho sangue, sangue este que começa a se mover bizarramente pela parede do prédio baixo. A escuridão segue a lamina rubra de sangue pelas ruas abafando quase toda luz e som de onde passa, inclusive o grito desesperado do bêbado que mijava.

Budacarest –
"O que houve, meu amor?" Lucita levanta o corpo de Anatole do chão
 "Nossos amigos, por Deus, eles estão á passos de despertar o ...o .. o ...Nãããããããããoooooo!" após eu grito Anatole se silencia. Rumina algo em latim, ajoelha-se e volta á rezar.
Lucita sabe que nenhuma profecia sairá, na verdade mais  nada irá sair de sua boca. Não por pelo menos muitas noites. Sem se importar agora, ela resolve voltar á sua leitura do manuscrito da Brujah Adana sobre a Camarilla que recebeu de Stanislau no Castelo Hermanstadt. "Melhor isso do que Monçada" ela suspira tentando se convencer de suas palavras.
  
Klausenburg –
A imensa loba uiva para os outros dentro da noite. A resposta não é nada animadora. Dentro desse choro informações assustadoras são passadas. A loba sabe do que eles falam. Sabe dos perigos que ela deixou para trás há poucos anos está para novamente amaldiçoar seu caminho e sabe que estar longe significa perder mais uma vez o rastro ancestral de seu amor. Mas ela sabe de sua responsabilidade também e em poucos segundos seu corpo começa a se transformar. Sua pelugem se torna mais negras, seu focinho, troco e patas, menores. Bem menores. Apenas os dedos das patas dianteiras mantém algum tamanho e uma película fina os liga por toda a extensão das juntas. Em poucos segundos, onde estava a loba, um morcego fêmea e sombrio levanta voo em uma velocidade impressionante pela noite da Transylvania . O destino: sudeste.

Em algum lugar entre Balgrad e Hermanstadt –
E velha cigana joga o ovo no chão. Sangue em lugar de clara e gema. A voz da Baba é rouca e viscosa: "Seus amigos estão levando o filho de Dracul para a Boca Sangrenta. Lá ele aprenderá a verdadeira natureza dos Fiends."
O cigano mais novo permanece agachado, com o semblante de desapontamento. A outra cigana "Eu disse que os vi no castelo de Oto. Eles estavam lá, pajeando Rustovich. Se anunciando mensageiros de Radu. E levaram Vlad depois da confusão dos Anarquistas". Ela dá meia volta e caminha para fora da carroça.
"Eles vão entregar o Impalador para eles, velha Durga ?" Pergunta o cigano.
A velha sorri, seu rosto horrendo se contorce e suas presas se salientam "O que está feito está feito, pequeno Dimitri" Ela acaricia um corvo negro e o lança á voar pela janela. "E o que está destinado á acontecer... Bem, isso é certo de ser inexorável. Mas é claro que os dons de sentir o fluxo da Roda do Karma não é um dom de Santa Sarah (ou Kálí ou Lilith, como preferir), apenas para ser apreciado, e sim, para ajudar aqueles que tem a motivação e coragem de ajustar as coisas. Deixar Fluir o que deve acontecer, protelar o que pode ser protelado e impedir o que deve ser impedido. Só resta á você, meu caro, e aos seus amigos entenderem o que devem fazer, dentro de seus amaldiçoados corações. O que você me diz então?"
Dimitri nada responde, mas levanta-se e segue seu corvo pela noite. A Durga permanece sozinha em sua cabana, fitando um punhal com o símbolo de um dragão em seu cabo. Uma lagrima de sangue cai de seu olhos "Ah, meu belo e jovem Rei. Se você soubesse o que o destino reserva para teu filho... Talvez você não tivesse nunca me ouvido. Talvez você tivesse me destruído. Que MahaKálá se encarregue de seguir seu fluxo ....inexorável.".

Ruinas do Castelo Hermanstad –
Zelios termina de escrever a carta, colocando de volta a pena no tinteiro. Se levanta da mesa e lê em voz alta para si. "Minha cara Ruxandra, apesar de você insistir nesse engodo, ao preço de nossa vidas, não posso compactuar com isso. Nem mesmo que pela diversão que seja enganar os Voivoides Tzimisce e os Patrícios Ocidentais Ventrue, o risco é alto demais. Principalmente após ter arriscado a vida de meus aliados duplamente, se escondendo em seus domínios ou deixando o incêndio dos Anarquistas quase destrui-los. Sei que eles podem estar entregando o mortal Dracula para os Voivoides, mas eles não tem culpa de desconhecerem as profecias ou mesmo de saber o quão arriscado são seus movimentos. Ao menos eles não entregaram ele para Buscul ou qualquer outro Patrício Arpad. Agora você está por sua própria conta. Estou partindo para o Oriente e deixo-a sob sua própria sorte,  minha falsa Príncipe. Que Caim tenha piedade de sua alma maldita. Seu grão sire, Zelios." O Nosferatu fecha a carta em um envelope. Depois volta a sua atenção para os mapas em cima da mesa. O papiro carcomido do primeiro diz "Egito Antigo" em latim. Zelios quase sorri.

Alamut –
Tariq e Al-Sharad conversam telepaticamente. O assunto é o único mortal que derrotou um Califa Assamita em milênios, Drakulya. Al-Sharad se levanta e ruma para o Sanctum de sua Cria. Tariq não está nada feliz. Ele reabre as "Escrituras de Haquim" e passa novamente sobre o capitulo das profecias de Ynosh. Ele não acha nada sobre o mortal e a Catedral de Carne. Ele continua infeliz. E preocupado. Ele volta a meditar em Maomé em busca de conforto. Mas ele sabe que isso não dará resultado. E a próxima reunião do Conselho dos Pergaminhos está tão distante...

Umbra Profunda, Enoch –
"Marcus Vitellinus" passeia pelo jardim de Zillah. Na frente do templo do Aralu, o Lasombra, que muitas noites atrás era conhecido como Lucius Aelius Sejannus lê os nomes do Aralu. "Nergal, Al-Marih, Loz e Nimug". Ele olha para as sombras distantes da Primeira Cidade e tem a impressão de que elas olham para ele. "Se você soubesse, minha cara Cria Lady Miriam, em que você está se metendo..." Ele não consegue deter seu sorriso.

Budapeste –
"Conte, Havnor, conte para eles... Diga a eles, diga a eles, meu caro" Octavio ouve em sua mente.
"Não, eu já avisei a eles. O que quer que você queira que eles saibam esta noite você deve ir lá e dizer a eles você mesmo!"
E então, misteriosamente "a voz" em sua mente se cala. Octavio, depois de muitos anos, quase suspira aliviado. Mas ele sabe que será por pouco tempo. Ele testou a paciência da "voz" pela ultima vez... Ele roga para que o seu descanso nos caninos do Profeta da Gehenna chegue logo. Ele não aguenta mais existir. E ele também chora lagrimas de sangue, pois sabe que ainda vai levar um tempo para isso acontecer.


Ceoris -
Etrius veda a passagem para a tumba de seu mestre. Por um breve segundo, ele ouve um vento que ainda escapa pela entrada. Por um segundo, aquele vento lhe parece familiar. Lembra quase uma leve risada maquiavélica que seu patter costumava dar no período entre sua transformação em Cainita e o Amaranto de Saulot. Ou ainda após disso, nos poucos períodos que ele permaneceu acordado. Mas algo quase inaudível por trás dessa risada a acompanhava. Afastando essas bobas lembranças de sua mente, Etrius novamente torna a repetir os encantamentos de proteção para impedir o acesso de outros á câmara de Tremere. Os pensamentos nas notícias de Celestyn e na tarefa de prender o fantasma do Faraó Fantasma dispersa a sensação terrível da possibilidade de seu "sire nominal" estar gargalhando em seu torpor ...

Igreja Negra de Kronstadt
...E como em ressonância á brisa vinda de Ceoris, outra vem do sarcófago de "Lugoj”. O revenante Rhuven se contorce de medo, ao ouvir um ruído vindo do descanso de seu domitor. Desde o seu ultimo discurso para os anarquistas após o ataque á capela sombria do Anciente, o "Quebrador do Laço" ainda não havia se manifestado. Em sua mente, apenas uma palavra ecoa... Gehenna...

Passagem Tihuta -
"Você os perdeu, eles acabaram de sair" Radu olha com preocupação para a escuridão de sua sacada. "Eu lhes dei a palavra de fazer da Grimaldi sua cria, e de Wenceslau.. "
O Voivoide dos Voivoides interrompe "Você percebeu o poder de Yorak sob nossas mentes? Em séculos nenhuma vez ele interviu tanto quanto agora. Existe algo de realmente especial naqueles meninos e, principalmente, naquele mortal Draculesti. Não gostei nem um pouco de receber ordens, principalmente do Sacerdote de Carne, ainda mais agora que o Anciente foi destruído... Nós podemos contra ele, Radu, se nos unirmos á Vykos e Veyla..."
Radu interrompe "Basta, Rustovich. Seu ódio pelod Lupinos está se transbordando para Yorak. Olhe o que você está me propondo, meu caro!"
 Rustovich começa a se desemcorporar, transformando-se em névoa "As opções estão acabando meu caro. Logo o discurso de Hardestadt estará insuflado pelos Patricios Arpad. Logo os Anarquistas irão perder força e precisarão de liderança. Logo Tabak, Dragomir e Vikto virão atrás de nós, querendo que os lidere ou que pereçamos como os senhores deles. Amlas e Fagaras já estão em contato com eles. As Taras também. Shaagra já foi contatada. Logo apenas seremos eu, você e o outro Matusalém contra todo o clã. Você vai querer mesmo resistir ao Clã  e tentar novamente a ideia falida de se unir em um novo Conselho das Cinzas, com Nova, Marusca e outros peões dos Fundadores, ou pior, se manter acuado nesta fortaleza até que o Pai Negro se levante?"
Radu está sozinho. Ele medita fitando a noite. Um morcego enorme passa por sua cabeça. Não é Rustovitch, Radu tem certeza disso. Mesmo com seu vasto poder de Presença, o Príncipe exilado percebe que está muito perto de ser devorado pelos mais velhos, como o Arcanjo Gabriel professa na versão cristã do Livro de Nod. "Se for para dar meu vitae... Que seja para que eles se prendam em Laço... Mas eles nunca terão a minha alma!" O próprio Ancião se surpreende com sua vivacidade. Existe paixão ainda nesse velho cadáver. "Que venham os novos tempos, que venham as novas seitas. O regente delas será o mesmo.Eu. Eu!” E uma gargalhada soturna e maléfica transborda de sua garganta. Uma brisa passa pelo castelo, como se respondesse a gargalhada de Radu, como se desdenhasse da força do velho ancião. 

23 de agosto de 2013

A luz está apagada. Na plateia, o espectador se aquieta. Seu calar, sua predisposição a ser bombardeado por todo um simulacro de vida está para começar. A única luz que acende é a de seu aparelho móvel, para logo, logo apagar-se. Ele não está mais disponível para ser achado em qualquer lugar por nenhum satélite artificial em órbita terrestre. Um terceiro sinal toca, a peça está para começar. A luz acende. Acende ou ascende? O espectador se assusta. Ele não reconhece o que está na sua frente. É amórfico. Não é nada. Ou talvez seja, mas se é alguma coisa, é tão rápido que chega ser imperceptível ao olho humano. O espectador fica aflito, seria melhor se a luz estivesse apagada. O espectador se mexe, inquieto na cadeira, tentando identificar naquilo, algum sentido, algum propósito. Racionalizando, especulando...

            E por um breve e precioso segundo, ele percebe, de forma abstrata, algo ali que lhe é estranhamente familiar. Algo que ele já foi, ou será, ou talvez ainda seja... E se questiona como isso é possível. O espectador não entende, mas passa a observar, e ao mesmo tempo que observa, passa também a vivenciar alguma coisa. Agora ele gostaria que a luz estivesse mais potente. “Luz, mais luz” ele pensa. E essa invocação é atendida. Naquele momento, todas as luzes do teatro estão acesas. Todas. Inclusive e principalmente as de saída de emergência. O espectador percebe que ele está em cena, junto com aquilo ali que está em sua frente, no palco. É sobre ele que aquele veículo de alegorias e simbolismos, flutuante e inconsistente, está falando. Ou sobre algo dele, algo que agora está em plena luz. São improvisos, monólogos, comédias, clássicos, rock´n´roll brazuca, religião, auto-ajuda, poéticas, “distanciamento”, performances, sofrimento em dança... Tudo aquilo que o espectador julgava, antes de morrer e renascer à luz do teatro, não existir em si mesmo. E que mesmo sob a própria luz, ainda julgue se é que existe mesmo em si. O espectador está tão exposto nesse momento que ele questiona até se julga alguma coisa. Será ele tão amorfo quanto aquilo que está no palco? E como viver com essa angústia, naquele mundo fora do teatro? Será que o mundo fora do teatro é o mundo real? Ou será que ali, naquele local, esteja uma possibilidade do mundo ? O mundo está girando? A galáxia? O universo? A co-presença corporal ator-espectador está girando vertiginosamente?


             De repente, novo susto para o espectador. Todas as luzes se apagam. Ou quase todas. Aquela primeira luz ainda está lá. O ser amorfo some quando esta ultima, por fim, se apaga. Novamente a luz retorna. É um ator que está no palco. Ele está cansado. Suado. E ele se choca. O espectador não está mais lá... Ele desce do palco, aflito. Procura de forma desesperada o espectador. Não houveram aplausos. O ator não sabe se o espectador gostou. Não sabe se tudo que ele viveu surtiu algum efeito. Não houve agradecimento, crítica, sorriso, indiferença, conselho, vaia, choro, nada. De repente, o ator, ainda desamparado, percebe muito rapidamente que a poltrona onde o espectador está diferente. Ela está marcada em volta, como se alguém houvesse ficado sentado ali por muito tempo. Intuitivamente, ele olha para o seu banquinho no palco. Ele está molhado de suor. O ator percebe que ambos, ele e o espectador, ocuparam espaço, modificaram o mundo ao seu redor, se modificaram. Então, ao se mover por acaso, o ator então percebe por um breve instante algo espetacular para ele. Um feixe de luz partiu de sua poça de suor sobre o banquinho em direção á poltrona marcada. Foi muito rápido, mas o ator viu. Sorrindo, resolve bater palmas.