23 de agosto de 2013

A luz está apagada. Na plateia, o espectador se aquieta. Seu calar, sua predisposição a ser bombardeado por todo um simulacro de vida está para começar. A única luz que acende é a de seu aparelho móvel, para logo, logo apagar-se. Ele não está mais disponível para ser achado em qualquer lugar por nenhum satélite artificial em órbita terrestre. Um terceiro sinal toca, a peça está para começar. A luz acende. Acende ou ascende? O espectador se assusta. Ele não reconhece o que está na sua frente. É amórfico. Não é nada. Ou talvez seja, mas se é alguma coisa, é tão rápido que chega ser imperceptível ao olho humano. O espectador fica aflito, seria melhor se a luz estivesse apagada. O espectador se mexe, inquieto na cadeira, tentando identificar naquilo, algum sentido, algum propósito. Racionalizando, especulando...

            E por um breve e precioso segundo, ele percebe, de forma abstrata, algo ali que lhe é estranhamente familiar. Algo que ele já foi, ou será, ou talvez ainda seja... E se questiona como isso é possível. O espectador não entende, mas passa a observar, e ao mesmo tempo que observa, passa também a vivenciar alguma coisa. Agora ele gostaria que a luz estivesse mais potente. “Luz, mais luz” ele pensa. E essa invocação é atendida. Naquele momento, todas as luzes do teatro estão acesas. Todas. Inclusive e principalmente as de saída de emergência. O espectador percebe que ele está em cena, junto com aquilo ali que está em sua frente, no palco. É sobre ele que aquele veículo de alegorias e simbolismos, flutuante e inconsistente, está falando. Ou sobre algo dele, algo que agora está em plena luz. São improvisos, monólogos, comédias, clássicos, rock´n´roll brazuca, religião, auto-ajuda, poéticas, “distanciamento”, performances, sofrimento em dança... Tudo aquilo que o espectador julgava, antes de morrer e renascer à luz do teatro, não existir em si mesmo. E que mesmo sob a própria luz, ainda julgue se é que existe mesmo em si. O espectador está tão exposto nesse momento que ele questiona até se julga alguma coisa. Será ele tão amorfo quanto aquilo que está no palco? E como viver com essa angústia, naquele mundo fora do teatro? Será que o mundo fora do teatro é o mundo real? Ou será que ali, naquele local, esteja uma possibilidade do mundo ? O mundo está girando? A galáxia? O universo? A co-presença corporal ator-espectador está girando vertiginosamente?


             De repente, novo susto para o espectador. Todas as luzes se apagam. Ou quase todas. Aquela primeira luz ainda está lá. O ser amorfo some quando esta ultima, por fim, se apaga. Novamente a luz retorna. É um ator que está no palco. Ele está cansado. Suado. E ele se choca. O espectador não está mais lá... Ele desce do palco, aflito. Procura de forma desesperada o espectador. Não houveram aplausos. O ator não sabe se o espectador gostou. Não sabe se tudo que ele viveu surtiu algum efeito. Não houve agradecimento, crítica, sorriso, indiferença, conselho, vaia, choro, nada. De repente, o ator, ainda desamparado, percebe muito rapidamente que a poltrona onde o espectador está diferente. Ela está marcada em volta, como se alguém houvesse ficado sentado ali por muito tempo. Intuitivamente, ele olha para o seu banquinho no palco. Ele está molhado de suor. O ator percebe que ambos, ele e o espectador, ocuparam espaço, modificaram o mundo ao seu redor, se modificaram. Então, ao se mover por acaso, o ator então percebe por um breve instante algo espetacular para ele. Um feixe de luz partiu de sua poça de suor sobre o banquinho em direção á poltrona marcada. Foi muito rápido, mas o ator viu. Sorrindo, resolve bater palmas.

10 de maio de 2013

Viajando no Artaud e no Stanislávski



Quanto procura se apropriar de questões relativas à contemporaneidade cênica a partir de seu legado por intermédio de seus escritos e dos documentos  que registram sua prática teatral, pode-se reconhecer em Antonin Artaud (1896-1948), um deslocamento de foco nas reflexões sobre o teatro, um deslocamento que será determinante para o desenvolvimento dessa forma de arte no século xx.
            Podemos pensar que, por inicio, o primeiro reformadores do trabalho do ator, a começar por Constantin Stanislávski (1863-1938) nos oito últimos anos de sua vida, a segunda fase de suas pesquisas - a mais importante de sua obra, por ser abrangente e conclusiva -  desenvolveu seu método, o Sistema das Ações Físicas.   
Antes desta sistematização o ator ocidental aprendia na imitação do mestre (um ator mais velho que transmitia ao aluno-ator os passos, os textos e formas pré-concebidas etapa por etapa). Já neste sistema o diretor russo subordina a técnica e a criatividade, não mais à psicologia, como na fase anterior, mas à expressão física - vivência - das ações.
O primeiro passo para estabelecer um processo criativo orgânico passou a ser a relação física do ator com os objetos e pessoas que estão à volta e que são a base de suas sensações. Stanislávski dá ao ator o status de criador cênico. Não mais mero reprodutor das ideias do diretor. Faz do teatro um processo onde autor, diretor e atores promovem uma unidade de criação cênica, tendo-o como fruto de experimentação prática e contínua, onde os sentimentos interiores e exteriores do ator correm de acordo com as metas fixadas para eles, e não há absolutamente nenhuma coerção ou desvio de norma, nenhum clichê ou qualquer espécie de atuação convencional. Bastante apropriado para o ator que quer romper com formas antigas e buscar uma autonomia na sua composição. Porém o sistematizador russo partia do texto como pontapé inicial de sua criação e por conseqüência do processo que seu sistema sugeria ao ator. Ao passo que Artaud irá questionar esse “pré-conceito” ao transcorrer sobre um dos Duplos do Teatro, a Metafísica;
“Como é que o teatro ocidental (digo ocidental porque felizmente há outros, como o teatro oriental, que souberam conservar intacta a idéia de teatro, ao passo que no ocidente esta idéia - corno todo o resto - se prostituiu), como é que o teatro ocidental não enxerga o teatro sob um outro aspecto que não o do teatro dialogado? “
Contrário à imposição da palavra como única matriz geradora do espetáculo, o artista francês coloca em evidência a importância dos outros elementos presentes na encenação para o alargamento das possibilidades de significação do teatro: o ator, com seu corpo e sua voz; a iluminação; as sonoridades da música e da palavra; o figurino; e o espaço. Sobre outro Duplo, a Peste, mostra o quanto essa junção caótica: 
“ Uma verdadeira peça de teatro perturba o repouso dos sentidos, libera o inconsciente comprimido, leva a uma espécie de revolta virtual e que aliás só poderá assumir todo o seu valor se permanecer virtual, impõe às coletividades reunidas uma atitude heróica e difícil.”
Nesta dificuldade e heroísmo próprio dos mitos, podemos dizer que Artaud buscou, assim como Wagner, um "teatro total". Porém, as concepções diferenciam-se em seus fundamentos. Na Gesamtkunsterk wagneriana, todos os elementos do espetáculo deveriam estar a serviço da "arte maior": a música. Artaud, por sua vez, influenciado pelas estéticas teatrais orientais, apesar de reconhecer na música princípios fundamentais para a estruturação do gesto e da palavra, não estabelece uma hierarquia entre os meios de expressão utilizáveis em cena.
No que diz respeito, portanto, à ação física, o artista francês contribui para o seu desenvolvimento enquanto conceito, à medida que utiliza como "matrizes geradoras" de ações, os diferentes "duplos" do teatro como a metafísica e a peste.
Para Artaud, a experiência teatral deve ir além do exercício puramente intelectual. Através de suas elaborações teóricas e de sua prática, o teatro volta-se, assim como já ocorrido com as outras formas de arte, para o específico de suas possibilidades expressivas, as quais, antes de contar uma história, devem agir sobre os sentidos.
Em resumo as matrizes geradoras das ações físicas se descolam  do textocentrismo com Artaud, pois no seu teatro e conseqüentemente nas ações executadas pelos atores, ele se utiliza dos “duplos” como a metafísica e a peste para tornar-las signos.  

* Chamo de Sistema de Ações Físicas já que Stanislávski não criou um Método, nunca chamou de método e sim de um sistema. Ele não deixou um ‘como fazer’ passo a passo. A única forma de passar pelo Método das Ações Físicas seria através do próprio Stanislávski, em pessoa. Além disso, tantos seguidores do diretor chamaram o que interpretam como seu sistema como “Método”, como, por exemplo, os criadores do Actor Studio norte-americano. Portanto, para propósito deste texto, utilizei terminologia Sistema das Ações Físicas.

3 de maio de 2013

Neo Kal-El

Vi o trailer do Homem de Aço essa segunda. Os tempos mudam. E mudança sempre é bom. Até quando é pra nos trazer um sentimento tão feliz chamado saudosismo. Coisas que balizaram nossa jornada nessa "vida louca vida, vida breve". E eu me peguei mais uma vez lembrando que quando acreditei junto com o Gilberto Gil que um homem veio “nos restituir a glória”. E que ele podia voar. E ainda pode.

Os tempos mudam. Todas as adaptações televisivas já apontam o caminho pros leigos que aquele deus voador, depois desse filme, passaria a olhar cada vez mais para dentro. Esse é o nosso momento, e como um ícone Pop, ele não tinha como olhar mais para frente, para nós  e sorrir. Para acreditarmos na interpretação realista e nos CGs cada vez mais os heróis estarão voltados muito mais pra sua jornada interna do que olhar para o coletivo. Esse é o nosso momento: O mundo cresce cada vez mais, tudo altamente mapeado, seja o GPS, o Satélite ou o Microscópico. E cada vez mais apenas olhamos pro nosso individual com a desculpa de que assim cuidamos melhor do coletivo. O Campeão Social da Justiça dos novos tempos não sorri, sofre com seu fardo, com seu legado, com sua herança, ao que ele está pré-destinado. Essa é a sua nova Kriptonita. E exatamente quando mais precisamos de um campeão social, pois quem hoje quem olha pro coletivo apenas o faz por demagogia ou interesse próprio, sem sacrifício. Mas a consciência da dor da Kriptonita é boa. Pois quando ele transpõe sua fraqueza ele se torna mais Super. E espero que o Homem do Amanhã vença essa batalha, o melodrama egoísta, o medo e o receio de ser quem ele precisa se tornar, quem nós, os fãs, precisamos que ele se torne. Aquele que precisa usar seus Super Sentidos de dentro para fora.

Os seus dois pais, dois “nerds judeus” que o criaram pegaram toda a sua dor de serem menosprezados e deram para seu filho como a sua maior potência. O seu maior Super-poder. E então, vários anos depois, um diretor de cinema que tinha a tarefa de fazê voar na tela grande resolveu que o que lhe daria essa habilidade seria a sua inocência pueril. Para que o homem pudesse voar ele teria que fazer com que a plateia acreditasse como as crianças acreditam que a fada que voa e que faz o Pueri Eternus voar existe e precisa que eles afirmem sua crença para que ela continue existindo.   

Torço pro Cavill arrebentar no papel de Kal-El. Porque esse sorriso aqui, 
quebrando "a quarta parede", nos dizendo que é apenas um filme e mesmo assim você acreditou e voou com ele, esse aqui pode até ser superado, mas não será, pelo menos para os fãs, não será esquecido. Que venha o novo Homem de Aço.  

18 de abril de 2013

De repente fica tudo bem como o sorriso de uma criança



Hoje de manhã, indo de péssimo humor pro treino de Deep Water, aquele primeiro menino dos três que gritaram "Goooool" na semana passada me reconhecendo da propaganda da Heineken, quando me viu chegando ao vestiário para me trocar, disse: "Cara, você é a segunda pessoa muito famosa que eu encontrei hoje. Primeiro eu vi o Miguel Falabella, que é muito famoso, agora tô vendo você, que também é muito famoso! Esse é o melhor dia da minha vida!"  :)

Impossível continuar de péssimo humor. Cristovão, você com certeza vai ter outros melhores dias da sua vida e antes eu fosse tão famoso assim. Mas enfim, divirta-se comigo sempre. Estou ai pra isso mesmo. É minha labuta, meu ofício, minha arte, minha vida fazer com que seu dia, pelo menos, pareça ser o melhor dia da sua vida, sempre. E obrigado por tornar o meu muito bom também. Obrigado mesmo querido e obrigado por explicar pro seu amiguinho do lado que eu sou o “famoso como o Falabella" que aparece por 1 minuto numa propaganda mundial de cerveja. Grite “gol” sempre que quiser. Estou aqui mesmo pra isso. É pra isso que eu existo, pra te fazer sorrir que seja. E tenha sempre, sempre, sempre esse olhar generoso e pueril. E muitíssimo obrigado por dividi-lo comigo. E com seu amiguinho “desavisado”.
;)