28 de abril de 2010

"FLOR-DE-MAIO" de Rubem Braga

"FLOR-DE-MAIO
Entre tantas noticias do jornal — o crime do Sacopã,o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada “flor-de-maio” está, efetivamente, em flor.

Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais “flor-de-mato , e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa “flor-de-maio”.

No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as “flores-de-maio” do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a “flor-de-maio” — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

Ir só, no fim da tarde, ver a “flor-de-maio”; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica."

Será que tem flor-de-maio nesse mês, vô ?

1 de abril de 2010

Meu TCC

"Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade."

RAINER MARIA RILKE


 

CENTRO UNIVERSITÁRIO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

UniverCidade - Unidade Ipanema


 

CURSO DE TEATRO

covida


 

DEFESAS DE TCC


 


 

D.ZASTROZZI


 

De DANIEL BRAGA


 

Orientação:  VÍTOR LEMOS


 

Banca: MARIA ASSUNÇÃO e OSCAR SARAIVA


 

Dia 05 de abril, segunda-feira às 20h30


 

Local: SALA A503 Prédio A (Anexo) Rua Alm Sadock Sá, 318 Ipanema


 

Meu projeto de criação é uma cena de comédia dramática em cima do texto Zastrozzi de George F. Walker, especialmente o monólogo de apresentação da personagem principal (o próprio Zastrozzi). Em discurso dado por meio de uma seqüência de ações físicas, quero explorar as nuâncias da construção da personagem em diálogo com o próprio processo de criação. Pretendo me inserir e modificar o contexto da situação cênica ao analisá-la durante o processo.  Ruídos sobre a composição em si, talvez em metalinguagem ou quebra direta da linha dramática ficcional da peça de Walker podem ocorrer, como o monólogo de abertura de Bernardo, mas o centro da cena é a composição de Zastrozzi de forma autoral. Por isso D. Zastrozzi (Desastroso; Daniel-Zastrozzi, Desastre).

Agradecimentos do Projeto (escrito em final de Outubro de 2009)

Para Ana Augusta de Medeiros, minha mãe, Julia de Medeiros Braga, minha irmã e Marina de Medeiros Braga, minha sobrinha, com meu amor incondicional;

Para Demétrio Nicolau, meu primeiro professor de teatro, Suzanna Kruger, Daniel Herz, Gerald Thomas e Matheus Nastergali e Ana Kfouri, professores subseqüentes;

Para Carlos "Damião" Wilson (In memoriam), meu primeiro e breve mestre no teatro e seu discípulo Michel Bercovitch, meu segundo mestre;

Para todos os professores do curso, mas principalmente Regina Lucatto, Marli Santoro de Brito, Danuza Sartori, Ricardo Gomes, Luca de Castro, Maria Assunção, Jorge Vasconcelos, Ana Luisa Cardoso e em especial Andréa Maciel, André Gardel, Márcia Rubin, Monnica Emílio, Oscar Saraiva e Fabio Ferreira, que me apontaram importantes caminhos, acreditaram quando duvidaram de mim e continuaram acreditando quando até eu duvidei de minha capacidade.

Para Helena Varvaki e Fred Tolipan, meus novos mestres, que com quem tanto aprendi, também por colocarem barreiras e até sugerirem que eu revisse minha condição de aluno e ator, e, por detrás dessa severidade e compromisso com o curso, me surpreenderam com um carinho imenso.

Para Thereza Rocha, mestra e amiga, divisora de águas, pelos mesmos motivos acima e sem a qual nada disso teria acontecido.

Para Vítor Lemos, coordenador, professor, orientador e mestre, com muita admiração e uma gratidão, figura presente em todas as minhas bancas, cenas finais, aventuras e desventuras, desastres e descobertas nesse curso, desde o começo até hoje.

Para Ruth Ribeiro, pelo trabalho terapêutico, analítico e pela companhia no pensar a arte.

Para os meus amigos André Cavalcanti, Brunno MacCord, Beatriz Benjamin, Daniele Avila, Pitty Webo, Patrícia Gazoni e Isabel Pacheco, pela força e carinho para que eu seguisse meu sonho e ingressasse e percorresse este curso.

Para meus colegas de curso Jonathan Azevedo, Andressa Bottino, Luiza Vasconcellos, João Guióia, Clarisse Goldberg, Ana Fonte, Pedro Calazan, Jeyse Valente, André Peregrino, Isabella Rodrigues, Sabrina Braga, Aline Menezes, Mariana Amaral, Teresa Tostes, Zoatha David e Jonas de Sá por todos os momentos, com muita alegria.

Para Felipe Cavalcanti, Thadeu Meirelles, Ronaldo Salles, meus compreensivos e divertidos chefes no estágio no VT e, mais que todos, Rafael Dias, meu chefe atual, que aceitou minha inscrição no começo e que acolheu, com muita compreensão, paciência, tranqüilidade e a forma profissional, possibilitando pagar grande parte dos meus estudos com o meu suor de trabalho, especialmente nessa etapa final, alem de me proporcionar uma nova profissão.

Para meus companheiros de estágio, pela companhia, compreensão e momentos inesquecíveis de trabalho e diversão

e

Para meus dois maiores e melhores amigos no curso: Alex Reis e Pedro Emanuel Marques, com admiração, carinho, amizade, ternura e companheirismo. Sempre serei seu camarada, amigões.

Esse trabalho é dedicado a vocês todos. Sem exceções. Obrigado de corpo e coração.

 


 

24 de março de 2010

"Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito: da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Big Brother, da era do duplipensar - saudações!"

"Então o rosto do Big Brother sumiu de novo e no seu lugar apareceram as três divisas do Partido, em maiúsculas, em negrito:

"GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA"

"BIG BROTHER ESTÁ TE OBSERVANDO"


GEORGE ORWELL, "NINETEEN EIGHTY-FOUR"

22 de março de 2010

Micro-conto que está concorrendo no concurso da ABL

Este é meu microcontos que está concorrendo no concurso da @abletras agora aqui no meu twitter, mas q foi criado e enviado em 16/03

Madrugada. Uma Praia. Um vampiro de sangue boêmio grita pro céu: "Não tenho mais medo, Medroso é tu! Aparece!” Menos um vampiro na cidade.

Mais sobre o concurso: http://twitter.com/abletras ou http://www.academia.org.br/

18 de março de 2010

Dorme Agora - Grande Othelo

Voar, voar, voar
pra ninguém me alcançar
amanhã você vai ficar nervosa
impaciente, saudosa
desta vida que você acha
acha que é dolorosa
eu sei disso melhor do que ninguém
já passei por isso também

Mais do que perdida
na encruzilhada da vida
é a pessoa desistida
que não encontra querida
nas coisas, das coisas
não vê encanto
olha, toma o meu lenço
levanta a cabeça enxuga teu pranto.

Grande Othelo; 1915-1993

13 de março de 2010

Poesia sem poeta

Como nasce o verso e morre a poesia
Como aporta o dia e a noite singra
Eterno, nosso amor não finda.
Você é corpo-coração – e é toda minha.

Tenho dedos curtos e grossos ao macio de teu rosto
Flutuo na tua maré
Cheia de teus seios e quadris
Pressinto a inquietação da onda
Em tua imensidão de menina

Navego,a mansidão terna para teus súbitos
Braços quentes e beijos molhados.

Trago, afim e enfim,
A estrela do mar e versos.
Trago a incerteza do mar
Mais o grão de areia aos ventos,
Com o céu de pequenas bolas de fogo

Quero você
Quieta na tarde, o céu na face.
Quero você
Sorrindo de madrugada com olhar de criança.

1 de março de 2010

Fluxo da Maré – Uma desventura de Omnichrom, o super-herói das realidades alternativas


Pagina 1

Em um quadro geral, visto de cima, vemos o calçadão da praia de Copacabana, num final de madrugada. Poucas pessoas circulam por ele. À medida que a visão vai se aproximando (pode ser no mesmo ou em diferentes quadros), conseguimos definir essas pessoas. Num extremo, um velho com roupa de corrida está fazendo uma caminhada ritmada. Perto de um quiosque, uma prostituta está contando dinheiro. Um carro da polícia está parado, onde vemos um policial esfregando seus olhos, combatendo o cansaço. No outro extremo, um rapaz, vestido de roupas da moda e um largo crachá escrito "imprensa" pendurado no pescoço está mijando em um coqueiro na areia e, bem próximo dele, uma menina de rua (16 anos aprox.) deitada está dormindo, coberta por um pano sujo. Perto deles dois está Omnichrom, o super-herói de realidades alternativas, sentado num banco no calçadão da praia, observando o sol nascer e o distante movimento das ondas, impassível. 

Nosso herói é um ser todo de branco, seu corpo, sua pele, todo e inteiramente branco. Ele não tem cabelos, não possui sexo definido. Forte, porém não é musculoso, possui altura mediana. Algumas partículas douradas flutuam ao seu redor, em diversas velocidades e direções. Algumas são vistas, outras apenas formam um brilho dourado ao seu redor. Seus olhos e sua boca têm um brilho prateado. Um risco prateado corta o herói em dois do topo da cabeça até a virilha. No peito brilham levemente as letras OC. 

As pessoas começam a se mexer. A prostituta se desloca para mais próximo da rua; o policial entra no carro; o velho aumenta o passo na direção do quiosque; o rapaz volta pro calçadão e a menina acorda, como se incomodada pelo cheiro de urina e por algum sonho que se foi. Omnichrom continua parado. Podemos vê-lo melhor, bem de perto, enquanto as ações são destacadas. O velho passa pela prostitua, que está olhando para rua deserta como se esperasse algum carro. O velho finge não percebê-la, enquanto ela abaixa a cabeça, evitando o contato visual, quando ele passa. O policial ajeita o banco do motorista do seu carro para trás e coloca seus pés para fora da janela do carro. O rapaz anda quase que em zigue e zague e a menina levanta xingando o odor, arrastando o pano. 

Podemos ver bem próximo que Omnichrom olha fixamente para o mar, mas parece que, de alguma forma, ele está ciente de tudo que se passa a sua volta.

 

Pagina 2

Um táxi entra no extremo oposto pela avenida atlântica, ao passo que, do outro lado, a prostituta levanta a cabeça e o visualiza. Não conseguimos ver seu interior, muito menos o seu motorista. O rapaz passa por Omnichrom sem sequer percebê-lo, sorrindo e cantarolando num alegre pilequinho. O policial de novo ajeita as botas , enquanto que o velho olha para o policial com um contido desprezo. A menina então vê, num sobre-salto, Omnichrom. Ele continua sentado exatamente como antes. Percebemos somente agora um grupo de gaivotas negras de barrigas brancas passarem por cima dele, brilhando por baixo pela forte iluminação da praia. Tudo está em movimento, em fluxo, apenas Omnichrom está parado. Em todas as direções, ações das personagens. O rapaz chuta uma pedra portuguesa e comemora um gol, o táxi muda de faixa quando a prostituta faz sinal, o policial mexe uma ultima vez seus pés com botas, o velho desacelera e passa uma pequena toalha sobre seu rosto. O rapaz percebe que seu zíper ainda está aberto e o fecha com certo esforço enquanto caminha em passos bêbados e a menina chega bem perto de Omnichrom, e começa a encará-lo. Ele continua olhando o mar, que começa a recuar bastante. Embaixo, o título em letras grandes: "Fluxo da Maré".

 

Página 3

Cenas em Flashback preto-e-branco. Um garoto está num colégio fazendo uma prova. Apesar de aparencia normal, seu rosto parece muito com o de Omnichrom. A ponta do lápis dele quebra. O velho aparece ao lado de um túmulo no cemitério São João Batista, ajeitando uma coroa de flores que dizem "nunca irei esquecê-la". O policial está andando por uma estrada cheia de árvores em volta à cavalo. A prostituta está numa loja calçando um sapato de ponta agulha de oncinha de marca. Sentados no Maracanã, o rapaz está assistindo uma partida, ao seu lado percebemos uma silhueta corpulenta, mas ainda não conseguimos definir quem é. 

Já presente em cores a menina está olhando fixamente para Omnichrom e fala quando a ultima gaivota termina de passar por cima deles. Podem ser vários quadros.

 

Menina –(encarando) Moço...?
Omnichrom – (sem se mexer, em uma voz metálica) Olá.
Menina (com certo medo) Puxa, é você mesmo... Disseram que você tinha partido... Pra Lua ou algo assim...?
Omnichrom – Eu estou em Titã, uma lua de Saturno, vendo o movimento dos anéis, mas achei que você queria falar com alguém...
Menina – Hã?
Omnichrom -... Pequena Joana.
Menina – Como... Como você sabe como eu me chamo...?
Omnichrom – Daqui a mais ou menos 10 minutos você vai me dizer... (olha pra ela pela primeira vez) quando estiver chorando.


A Menina olha pra ele sem conseguir dizer nada. Omnichrom a encara e se levanta, cainhando para a areia, voltando novamente seu olhar para o mar. Ela o segue.

 

Página 4

Ele finalmente para e se senta de pernas cruzadas sobre a areia fofa.  Ela se aproxima, olhando as pegadas que ele deixou pra trás. Ela pergunta com rapidez, mostrando um pensamento rápido e astuto.

Menina – Saturno? Lua? Anéis? Você tá brincando comigo? Por quê?
Omnichrom – Porque é lá que eu estou. E é pra lá que eu vou te levar, depois de você tentar me convencer de salvar as pessoas daqui.
Menina – Salvar? Convencer do que? Que doideira é essa?

 

O rapaz passa a andar meio de vagar, olhando para longe, abstraído. O policial se move agora para ouvir o radio de policia. A prostituta se inclina pela janela do táxi, percebemos que o taxista é o sujeito corpulento no Maracaná do Flashback da pagina  anterior que, apesar de aparecer coberto por sombras, parece nitidamente ouvir a prostituta com extrema má vontade. O velho para de correr e começa a andar, alongando os braços no alto da cabeça.

 

Omnichrom – São possibilidades, pequena Joana, infinitas possibilidades. Posso ainda estar aqui e talvez você possa me convencer aqui mesmo, ou talvez eu a deixe antes da onda vir.
Menina – (olhando ainda pra ele, começa a olhar pro mar, gagueja) On...Onda?

 

O mar está recuando bastante. Ações indefinidas dos outros personagens, não se consegue distinguir o que eles estão fazendo, tudo está borrado.

 

Página 5

Menina – (olha pra ele com muito medo, mas um pouco de raiva) É isso? Você vai inundar a praia? Eu vou morrer?
Omnichrom – Eu não vou inundar nada. Isso já está predestinado. E não, não tem haver com o aquecimento global ou qualquer coisa mundana, trata-se de um evento isolado, quer dize, mais ou menos... "Ai de ti, Copacabana" já até profetizaram... Bem, não importa. É inexorável. E é por isso que eu estou aqui, agora.
Menina – (confusa, quase cômica) Eu pensei que você estava em lá em Titã...
Omnichrom – Essa possibilidade ainda existe, mas agora estou aqui. Minha mente estava numa prova de geografia, na minha infância, já meu corpo matriz, naquele satélite distante. Mas sua presença afetiva me fez voltar para o aqui-agora.
Menina – (rápida pausa) Eu não estou entendendo nada...
Omnichrom – (cortando-a) E nem precisa entender. Está longe do entendimento humano, de certa forma. E claro, toda aquela ladainha de que a física quântica já explicou tudo... Bem, não é tão simples assim, mas também pode ser que seja... Pode ser que seja até bem simples, bem mais simples que física quântica... Acho que prefiro a mitologia. Ela explica de forma menos direta, é verdade, mas de um entendimento menos intelectual, mais sensorial. Claro, ela confunde um pouco, mas com o tempo e alguma maturidade... (a mão de Omnichrom pega um punhado de areia)
Menina – Olha, eu sou bem inteligente, tá? Não é porque eu moro na rua que eu...
Omnichrom – Eu posso ver seu fluxo temporal, não se preocupe.
Menina – Fluxo... Você quer dizer minha vida? Minha vida toda?... (ficando com os olhos borrados) Então eu vou morrer?
Omnichrom (deixando a areia escapar de uma das mãos em direção a outra, mais embaixo) Claro que vai.

 

Página 6

A menina olha para o mar, que continua recuando.

 

Omnichrom – Ah, você diz agora? Não, agora não.

 

Ela olha confusa e assustada para ele.

 

Omnichrom – Agora não. Em 50 anos talvez... Ou em 6 minutos. Ou então eu posso levá-la junto comigo para Titã e...
Menina - (irritada) Eu não quero ir pra lugar nenhum!... Eu quero...
Omnichrom – (Deixando o ultimo grão sair de sua mão para outra, falando pausadamente, com leve tédio) Você quer viver.
Menina (olha para baixo) Sim.
Omnichrom- Por quê? Sua vida não é muito difícil? Você acha que todos que estão aqui merecem que algo de bom aconteça com eles? Se eu intervier, aquele rapaz vai descobrir ainda hoje que sua divida no banco é bem maior que ele pensava. Aquele policial lá naquele carro não será poupado por seus superiores numa investigação e será acusado de corrupção - como bode expiatório - de mais um "escândalo policial" que aparece e some da mídia; Já aquele senhor correndo, ele luta por uma saúde que ele mesmo já abandonou em seu íntimo e você nem quer saber o que pode acontecer com aqueles dois no táxi.
Menina – (corta-o) Você é um deus?
Omnichrom – Como?
Menina – Você é uma espécie de Orixá? De Cristo, Buda ou algo assim?
Omnichrom - Ah... Ha ha ha ha... Não, não, Joana, eu...
Menina – Então como pode saber disso tudo?
Omnichrom – Já disse, eu apenas vejo...
Menina – Olha aqui, acho que você vê o que você quer ver!
Omnichrom –... Como assim...?

 

Página 7

Menina – Sabe, que nem minha mãe. Ela sempre se preocupava com tudo, comigo, meus irmãos, minha família, os vizinhos, as pessoas na Rua... Mas ela sempre pensava o pior de nós. Dela mesma. Ela sempre achava que tava todo mundo certo, todo mundo menos ela mesma e quem era próximo dela. Não era por mal, sabe? Mas acho que ela não tinha muita... Como era?... Auto-estima, é, é isso, auto-estima... Enfim, ela tinha muita tristeza e muita magoa da vida, achava que havia perdido algo que nunca mais iria recuperar, sei lá.... Então ela  me fazia mal, muito mal mesmo, mas sem nem saber. Então eu fugi. Ou melhor, eu fui embora. Foi o que deu pra fazer, pois ela vivia reclamando de tudo, botando erro em tudo e pior, achava que o erro era sempre nosso, não conseguia ver que tudo são... Escolhas.
Omnichrom –... Escolhas...
Menina – Sim, é isso. E acho que você vê as coisas assim. Claro, você pode ver bem mais que a maior parte das pessoas, mas você... Fica preso no que você entende, no "como" você entende e não enxerga que as coisas podem ser mais do que elas são. Bem mais... (fala como se citasse alguém). "As coisas podem ser o que você quiser" Quer dizer, sei lá, talvez não tudo, mas se não estivermos abertos... (ela começa a chorar) Sabe, eu gostava de um menino, mas ele morreu. Ele era bem mais velho que eu, mas eu o adorava. Ele me dava muita força. Muita mesmo. Sempre dizia coisas legais pra mim, lia muitas coisas legais, me ensinava muito. Me ensinou a gostar de ler. Ele era de uma ONG. Ai a ONG foi embora e ele ficou, com a grana dele mesmo. Ele levava muitos livros pra minha escola, com umas histórias muito legais, livros e quadrinhos sobre povos antigos, folclore sobre os índios brasileiros e o do povo africano e todos aqueles deuses bonitos... Lia muito com a minha turma, mas todo mundo ia embora e eu ficava lá com ele, lendo e lendo... E tinha umas peças de teatro muito legais, não tem nada mais legal que o teatro, né? Também iamos em uns centros culturais e uns museus incríveis... E isso foi só o começo. O melhor foi que ele nos ensinou a correr atrás disso tudo! Pesquisar em biblioteca, em sebo, na internet ... Ler vários dicionários... A gostar de palavras, sabe? Buscar o que a gente curte o que nos faz crescer. Crescer como gente, não como gado, sabe? E ele sempre dizia "Joana, você é muito inteligente, precisa aprender sozinha a observar o mundo. Lá está tudo o que podemos aprender, se levarmos ele pra dentro de nós." e eu acreditava nele, ou acredito ainda, não sei mais. Agora não posso contar mais com ele. Ele morreu... Ele mesmo dizia isso, que eu ia ter que um dia parar de contar com ele, mas mesmo aqui, eu sei que ele está comigo. De alguma forma. Nada dessa coisa de fantasma sabe? Ele tá no meu coração, bem aqui dentro. Tudo que eu vejo, ouço e sinto, ele está comigo. Faz parte de mim. Minha mãe também, apesar de tudo. Os dois, de certa forma. Você tem algo no seu coração?
Omnichrom – ( Completamente abestalhado) Meu ...
Menina – (ela limpa as lagrimas e fala agora com muita dignidade) Olha, quando nada em casa estava dando certo, quando essa cidade, esse país começou a afundar na lama e eu fugi... (a onda começa a aparecer no horizonte) quando eu fui embora... Quando eu fui seguir o meu caminho, eu... (ela para de olhar para o mar)...
Omnichrom –... Coração.

 

Pagina 8

Tudo se move muito rápido: O guarda liga o carro; O táxi se movimenta, levando a prostituta dentro; O velho está se alongando num banco do calçadão; O rapaz está com uma câmera fotografando o que parece ser o nascer do sol. A menina olha agora com muito choro se formando em seus olhos para a grande onda. Fora ela e Omnichrom, ninguém mais á percebe o maremoto. Ela limpa os olhos. 

 

Menina – (agora séria, sem mais chorar, olhando nos olhos de Omnichrom) Moço, eu sei que você pode fazer alguma coisa, eu ouvi falar de você. Eu li muito sobre você, sabe? Li tudo que pude. ... Olha, eu não queria mais morar lá com a minha mãe. Era muito duro, eu era um estorvo pra ela e tudo por lá só piorava,  e eu prefiro aqui, sabe? Nessa areia, bem perto do mar. Principalmente depois que meu amigo morreu... Sumiu... Enfim... Mas eu sonhei com isso, sabe? Com a onda. Com esta onda. E sonhei também que você me salvava. O meu amigo me dizia que meus sonhos eram alertas, idéias soltas, desamarradas, coisas assim. Que nem cadarço de sapato quando solta... (respira, depois fala pausadamente) Eu não quero morrer, (volta a fala rapidamente) mas eu também não quero que você se sinta mal por nada. Se quiser ir embora agora é melhor você...

 

Omnichrom levanta a mão com o resto de areia que cai. A onda enorme avança. Ele pisca. A Realidade se contorce e muda. A onda não existe mais. É como se nunca tivesse existido.  O mar está normal, calmo. O sol nasce. Omnichrom está parado com o braço levantado no ar e o resto da areia finalmente cai de volta na praia. Os dois carros, o taxi e a patrulhinha deixam a Avenida Atlântica; o velho e o rapaz atravessam a rua em lugares distintos, indo embora. Na praia, só restam a menina e Omnichrom.

 

Menina – (limpando o rosto) O senhor fez bem. Fez o que tinha de fazer. Amarrou o nó.
Omnichrom – Eu não fiz nada. Eu só deixei de fazer. Seu sonho é que me guiou. Você que é a super-heroína, Joana.

 

Eles dão as mãos

 

Menina – Venha, vamos molhar os pés.

 

Pagina 9

Grande quadro. Eles caminham na direção ao mar. O sol começa a subir mais, muita claridade.

 

Omnichrom – Sabe, Joana... Você fala muito bem....
Menina- (feliz) Obrigada. Leio muito. Graças àquele meu amigo...
Omnichrom –... Da ONG? Lembra o nome dele?
Menina – (Inspirada) Caio. O sobrenome eu não lembro. Mas você me fez lembrar muito dele... Me faz lembrar muito.... Por isso de "falar bonito"... É de propósito.  Eu lembro dele e ai falo bem. É uma homenagem. Eu gosto... E é tudo o que eu tenho. Falar  bem. Não que isso tenha me ajudado muito nos lugares que eu tentei trabalhar, sabe?...  Ele era mais ou menos da sua altura... Tinha os seus olhos também. Quer dizer... Parecidos. O jeito de olhar. Os olhos não... Ele era o meu super-herói! Os poderes dele eram menores que os seus, mas me marcaram profundamente, por assim dizer. Até que eu aprendi que eu devia ser a minha própria salvadora. Acho que ele me ensinou muito...

 

Rápida imagem de flashback preto-e-branco do cabeçário de uma prova, onde se lê "Caio" na parte do nome, e um rabisco com pedaço de grafite quebrado ao lado do O final.


 

Omnichrom – Ele devia gostar muito de você. E você... Você ensinou muito a ele, também!

 

Quadro menor. Ela sorri largamente. Ele apenas sorri levemente. De mãos dadas, colocam os pés na água. Sorriem para si e depois para o mar e o sol. 

FIM.

(Esse roteiro de 1994 era pra virar um roteiro pra HQ mais formal ou pra um storyboard de uma animação, mas não rolou nenhum dos dois, então republiquei aqui após algumas revisões... 
As pessoas odeiam o nome Omnichrom mas eu adoro. Todo mundo reclama que a Joana fala bem demais pra quem mora na rua, mas esta é uma realidade, que inclusive pode ser a nossa) ;)

27 de fevereiro de 2010

Ultima viagem

É de toda a arte que seria preciso dizer: o artista é mostrador de afetos, inventor de afetos, criador de afetos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é somente em sua obra que ele os cria, ele os dá para nós e nos faz transformarmos com eles, ele nos apanha no composto. DELEUZE 2005

 

Sofre o ator que se preocupa em "chegar a certa emoção". Lógico, cada um tem seu caminho, sua forma, seu método... Mas se o teatro hoje não tem como concorrer com outras artes midiáticas que são mestras em "representar a realidade", ou mais, se "representar a realidade" é um ato de se concordar com o que aqui está, a falida política vigente de opressão velada, que se diz apolítica, então só é arte anárquica àquela que corre por outro caminho.

Qual outro caminho? Não sei, até aqueles que se dizem "contemporâneos" se vendem também ao sistema, dispostos a se sustentar, enquadrar seus projetos em leis de inscentivos fiscais absurdas e desumanas... Por uma questão de sobrevivência.

Pensando bem, sempre acreditei que a mudança vem de dentro, e não de fora, tentando se empurrar algo em cima do que ai esta. Mas também não sei se só mudar alguns detalhes hoje em dia basta. Percebo que se torna pouco ousado, pouco renovador.

Mas ainda sim, não para o publico em geral, mas para mim, o teatro transforma. Seja o must do "contimporaneu", seja um teatrão com escapes visuais e truques de ilusionismo, ainda sim, com a presença do ator, e não uma ilusão de ótica somente projetada numa tela (sic) ainda sim isso me transforma, especialmente porque sou absolutamente cara de pau de ir conversar e sentir os atores após quaisquer espetáculo.


Ontem quando um espectador agradeceu um ator pelo espetáculo que assisti, por um segundo eu também quase disse "de nada". Está tão empregado em mim o trabalho sobre a minha senciência, sobre a minha capacidade de sentir, que me considero parte do espetáculo, mesmo como espectador. Quase ou parecido com espectador emancipado, como propõe/analisa/ensaia (sei lá o termo) Jacques Rancière, que de faço pertenço ao espetáculo.

Alias, isso também se dá na frente da lente. Levei o teatro, regulando sua dimensão para o mais minimalista dos fazeres, para o trabalho para câmera. Tornei aquele pequeníssimo espaço um palco.

Não fiz nada demais, na verdade, pois, para mim, independente da linguagem, estilo, forma, mídia, local, veículo, a arte do ator é se deixar transformar pelo mundo ao seu redor. É essa vivência, essa entrega. Por isso que duvido da celebridade de um modo geral . Salvo exceções a celebridade impõe, não convida, não instiga debates, não propõe possibilidades apartir de sua afetação com o mundo. Na verdade, não a celebridade, mas o sistema que regula a celebridade. E é desse sistema que falo quando o ator tem que se sensibilizar, se deixar alterar e vivenciar a cena, pois esse sistema do falso conforto e da falsa liberdade, vulgariza a vivencia, impede o questionamento, repudia a dúvida, recrimina o erro, descarta a alteridade.

Sei lá , viajei. Queria falar sobre ação em detrimento da reprodução e acabei desviando o assunto. E acabei falando sobre outro tipo de resistência que não só à relacionada ao trabalho do ator.... Ou talvez sim. Sei lá, não quero somente saber nem só sentir.

Leia algo sério e melhor sobre isso:

Conservar e resistir difere radicalmente de fixar um referente e reproduzir. A arte inspira-se no vivido, nas relações dos corpos, nas afecções e nas percepções para extrair afectos e perceptos. Os seres de sensação, ao se conservarem, abrem-se para a produção de novos devires, novas possibilidades de existência. A arte resiste ao desterritorializar o sistema de opinião, talhando fendas no guarda-sol que nos protege do caos. Ela é contraponto que vence a opinião e extrapola o vivido. Arte-fabulação, cujos os seres de sensação, seres de fuga tornam-se traços de expressão possibilitando a metamorfose, já que inventam novos mundos, compõem universos capazes de rasgar os significados, "estourar as percepções vividas", percorrer direções e sentidos diferentes. No momento em que fixa um só sentido, buscando a significação e a informação, a arte perde o seu poder de existir e resistir . LINS 2007